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Crônica 19 — O filme que nunca existiu

Antes de ser escritor, talvez exista sempre alguém tentando contar melhor uma história

Toda vocação narrativa começa em algum lugar.

Às vezes nasce nos livros.

Às vezes no cinema.

Às vezes em uma sala de aula.

E, outras vezes, nasce em um quarto cheio de primos, em dias nublados, quando alguém que não tinha filmes suficientes para contar decide inventar um.

Nesta décima nona crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini revisita uma experiência de infância que parece simples, mas carrega uma pergunta central para toda literatura: onde termina a mentira e começa a ficção?

O menino que inventava filmes para não ficar em desvantagem talvez ainda não soubesse, mas estava experimentando uma das tarefas mais antigas do narrador: fabricar mundos e tentar convencer alguém a habitá-los por alguns minutos.

Texto original da crônica

Crônica 19 — O filme que nunca existiu

Em dias nublados, ficávamos reunidos, meia dúzia de primos, contando filmes num quarto lá em casa. Rodávamos pelos que cada um tinha visto e todos queríamos fazer a melhor figura, nos consagrar como narradores da melhores histórias. Eu não via muitos filmes e não tinha o que contar, então inventava conteúdo, e me esforçava pra caprichar na forma. Por vários dias, contava uma história que chamava de Mataram meu Irmão, concentrada em múltiplas formas de vingança do irmão morto. Mas como não tinha matéria prima pra desenvolver os episódios, ia, cada vez mais, fabulando enrolações com plágios sutis dos relatos dos primos. Mas apresentava histórias curtas com início meio e fim e fragmentadas, técnica diversa da dos outros narradores; com essa e outras artimanhas por mais sal e pimenta, agradava. Mas apesar de todas as formas, disfarces e novidades narrativas, um dos primos percebeu a inverosimilhança e disparou: “Atochada, esse filme não existe. Você inventou, e fica contando mentiras pra gente.” Pois é, só na tela grande a mentira podia ser levada a sério. Mas eu, naquelas tardes, penso que tinha a minha primeira experiência de narrador, com os riscos que isso implica. Você, por exemplo, sabendo que além de gatuno fui mentiroso e que eu não ficarei sabendo, talvez também deixe de acreditar nessas bobagens que escrevo.

A infância como oficina de narradores

Esta crônica ocupa um lugar importante dentro da série MIMMESMO porque desloca a memória da família e do corpo para o nascimento da narrativa.

O quarto em dia nublado funciona quase como uma pequena escola informal de literatura.

Os primos se reuniam para contar filmes.

Não bastava ter visto uma história.

Era preciso contá-la bem.

Era preciso prender a atenção dos outros.

Era preciso disputar prestígio pela palavra.

Nesse ambiente, o menino que tinha pouco repertório cinematográfico encontrou uma saída: inventar.

E essa invenção, embora denunciada como mentira, já continha os elementos básicos da ficção.

Mentira, invenção e ficção

A crônica trabalha com uma fronteira delicada.

O menino mentia.

Mas mentia narrativamente.

Criava uma história.

Dava título.

Fragmentava episódios.

Misturava referências.

Plagiava os primos com sutileza.

Caprichava na forma.

A mentira infantil, nesse caso, aparece como ensaio da ficção.

O problema não era apenas inventar.

Era inventar fora da tela grande.

Como o próprio texto sugere, no cinema a mentira podia ser levada a sério. No quarto dos primos, precisava passar pelo julgamento da verossimilhança.

A primeira experiência de narrador

O título inventado, “Mataram meu Irmão”, já revela uma imaginação dramática.

Há morte.

Há vingança.

Há continuidade episódica.

Há tentativa de manter o público interessado por vários dias.

Mesmo sem matéria-prima suficiente, o narrador improvisava. E, ao improvisar, descobria técnicas: começo, meio e fim, fragmentação, ritmo, artimanhas, sal e pimenta.

Esse trecho mostra uma consciência narrativa precoce.

A criança não apenas inventava conteúdo.

Ela percebia que a forma importava.

Essa é uma das chaves da crônica: a descoberta de que uma história depende tanto do que se conta quanto de como se conta.

O primo como primeiro crítico literário

Todo narrador encontra seu crítico.

No caso do menino, o crítico veio em forma de primo.

A denúncia foi direta:

“Atochada, esse filme não existe.”

O golpe foi preciso porque atingiu o ponto frágil da invenção: a credibilidade.

Mesmo entre crianças, uma história precisa sustentar alguma lógica interna.

Precisa parecer possível dentro das regras do próprio jogo.

O primo percebeu a inverossimilhança.

E, ao fazer isso, inaugurou também outra experiência fundamental para qualquer escritor: o risco de não ser acreditado.

A dúvida lançada ao leitor

A parte final da crônica é especialmente interessante.

O autor adulto liga a mentira infantil ao ato de escrever no presente.

Ele admite ter sido gatuno em crônicas anteriores.

Agora admite ter sido mentiroso.

E provoca o leitor:

Talvez você também deixe de acreditar nessas bobagens que escrevo.

Esse movimento é sofisticado.

O narrador coloca sua própria autoridade em jogo.

Em vez de pedir confiança absoluta, convida o leitor a desconfiar.

E, paradoxalmente, essa honestidade sobre a própria invenção torna o texto mais forte.

A literatura e seus riscos

Toda escrita autobiográfica carrega uma tensão.

O que é fato?

O que é memória?

O que foi reorganizado pela linguagem?

O que foi esquecido?

O que foi ampliado?

MIMMESMO não esconde essa tensão.

Ao contrário, faz dela matéria literária.

A crônica sugere que narrar a própria vida nunca é apenas reproduzir o passado. É sempre reconstruí-lo.

A memória seleciona.

A linguagem transforma.

A forma dá contorno.

E, em algum ponto, toda lembrança passa a se parecer um pouco com um filme que nunca existiu.

Por que ler esta crônica?

Porque ela revela uma possível origem do escritor.

Mostra um menino tentando se afirmar entre os primos pela força da narrativa, mesmo que para isso precisasse inventar um filme inexistente.

É uma crônica sobre infância, mentira, imaginação, ficção, verossimilhança e sobre os primeiros riscos de quem decide contar histórias.

Continue acompanhando MIMMESMO

A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, humor, culpa, linguagem e formação humana.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como as lembranças de uma vida podem revelar o nascimento de uma voz literária.

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