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Crônica 28 – MIMMESMO: Desde Cedo Éramos Orientados a Negociar com Deus

Há dores que a infância tenta entregar ao sagrado

Algumas cenas da infância permanecem porque carregam uma violência difícil de compreender.

Não apenas a violência do acidente em si, mas a maneira como a criança tenta sobreviver emocionalmente ao que aconteceu.

Nesta vigésima oitava crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini revisita um episódio marcado por queimadura, fé, susto familiar e uma frase que resume uma educação afetiva e religiosa inteira:

“Desde cedo éramos orientados a negociar com Deus.”

A cena é forte. Um menino cai sobre cascas de arroz que escondiam brasas do dia anterior. Depois, é encontrado de joelhos, rezando diante de santinhos espalhados sobre a cama. A dor física se mistura à fé, ao medo e à tentativa infantil de transformar sofrimento em promessa de proteção.

Texto original da crônica

Crônica 28 – Desde cedo éramos orientados a negociar com Deus

Um dia, um irmão meu irmão pulou dentro de um monte de cascas de arroz no moinho em que o pai trabalhava; cascas fresquinhas a cobrir as cascas em brasa do dia anterior. Foi encontrado de joelhos em seu quarto. Rezava para santinhos de igreja esparramados sobre a cama, presentes dos padres para as crianças obedientes. Para a mãe que ao chegar se apavorou com as pelancas de pele penduradas pelas suas pernas, ele dizia: Está ardendo, mas vai ficar tudo bem. Desde cedo éramos orientados a negociar com Deus.

A infância diante da dor

A crônica apresenta uma cena brutal, mas narrada com contenção.

O acidente acontece no moinho, espaço recorrente em MIMMESMO. Ali, onde o trabalho do pai se misturava às aventuras e riscos da infância, o irmão pula sobre cascas de arroz aparentemente inofensivas.

Mas havia brasas escondidas.

A imagem é poderosa porque revela uma das grandes ameaças da infância: aquilo que parece brincadeira pode esconder perigo.

O menino não entende completamente o risco antes de vivê-lo.

A dor chega depois.

E chega de forma devastadora.

O quarto como lugar de oração

Depois do acidente, o irmão é encontrado de joelhos no quarto.

Não está apenas chorando.

Está rezando.

Diante dele, santinhos de igreja espalhados sobre a cama, lembranças de uma infância atravessada pela moral religiosa, pela promessa de recompensa às crianças obedientes e pela ideia de que a fé poderia interceder diante da dor.

Essa imagem desloca a crônica do acidente físico para uma dimensão simbólica.

O quarto torna-se capela improvisada.

A cama vira altar.

A criança ferida tenta dialogar com o divino usando os recursos que recebeu dos adultos.

A frase que sustenta a crônica

“Está ardendo, mas vai ficar tudo bem.”

A frase é comovente porque une dor e tentativa de consolo.

O menino queimado não apenas sofre.

Ele tenta tranquilizar a mãe.

Há uma inversão dolorosa: a criança, ferida, parece assumir o papel de acalmar o adulto apavorado.

Essa serenidade pode ser lida como coragem, fé, resignação ou simples impossibilidade de compreender a gravidade do que havia acontecido.

Como muitas passagens de MIMMESMO, a cena não entrega uma interpretação única.

Ela permanece aberta.

E justamente por isso continua incomodando.

Negociar com Deus

A última frase reorganiza todo o texto:

“Desde cedo éramos orientados a negociar com Deus.”

A expressão é dura.

Ela não fala apenas de fé.

Fala de uma relação com o sagrado mediada por obediência, medo, promessa, culpa e recompensa.

A criança aprende que talvez possa obter proteção se rezar corretamente, se for obediente, se oferecer algo em troca, se negociar com a instância superior que governa o sofrimento.

A crônica sugere que a fé, naquele ambiente, não era apenas consolo.

Era também pacto.

E, às vezes, peso.

O moinho como território de risco e formação

Ao longo da série, o moinho aparece em várias memórias.

É lugar de trabalho do pai.

Lugar de máquinas.

Lugar de brincadeiras proibidas.

Lugar de quedas.

Lugar de queimaduras.

Esse espaço funciona quase como personagem dentro de MIMMESMO.

Representa o mundo adulto, o trabalho, o perigo e a formação das crianças em meio a ambientes pouco protegidos.

Ali, a infância aprendia não apenas a brincar.

Aprendia a sobreviver.

Por que ler esta crônica?

Porque ela mostra a infância em uma de suas faces mais difíceis: a tentativa de compreender a dor através da fé.

É uma crônica sobre acidente, família, religião, medo e sobre a forma como certas educações ensinam crianças a transformar sofrimento em negociação espiritual.

Curta e intensa, ela deixa no leitor uma imagem difícil de esquecer: um menino ferido, de joelhos, cercado de santinhos, tentando acreditar que tudo ficaria bem.

Continue acompanhando MIMMESMO

A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, dor, culpa, fé, humor e formação humana.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como as lembranças mais difíceis também podem revelar camadas profundas da vida, da família e daquilo que aprendemos cedo demais.

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