Às vezes, o primeiro lugar seguro da infância é o colo de um irmão
Nem toda proteção vem dos pais.
Em muitas famílias, especialmente quando a casa é atravessada por conflitos, são os irmãos que aprendem, silenciosamente, a cuidar uns dos outros.
Nesta trigésima crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini transforma uma lembrança aparentemente simples em uma reflexão delicada sobre afeto, medo e cumplicidade.
O inverno, as cobertas empilhadas, as noites de verão e as brigas dos pais compõem uma memória em que duas crianças tentam enfrentar, juntas, aquilo que nenhuma delas poderia controlar.
É uma crônica sobre irmandade, proteção e sobre os pequenos gestos que permanecem aquecendo a memória por toda a vida.
Texto original da crônica
Crônica 30 – Cobertas Contra o Medo
As minhas irmãs eram um terço da prole dos meus pais. A mais velha era friorenta como um quiuí e empilhava na cama uns trinta centímetros de acolchoados e cobertores nas noites de inverno. A manobra completa, no entanto, era me convidar para dormir na cama dela, precedendo-a debaixo do amontoado de cobertas geladas, e nisso eu me amparava. Era esse o jeito de sentir menos medo com as brigas hiperbólicas do pai e da mãe. Em noites de verão, das brigas da estação quente, era ela quem vinha ao meu quarto, sentava na minha cama e espantava meus pavores para distrair os dela.
A infância protegida pelos irmãos
Ao longo de MIMMESMO, os pais aparecem como figuras centrais, complexas e contraditórias.
Nesta crônica, porém, quem ocupa o lugar de proteção é a irmã mais velha.
Não há grandes discursos.
Não há promessas.
Há apenas presença.
No inverno, ela convida o irmão para dormir em sua cama.
No verão, atravessa a casa para sentar ao lado dele.
São gestos pequenos.
Mas, para uma criança, tornam-se abrigo.
A crônica mostra que o cuidado entre irmãos pode nascer naturalmente, sem que ninguém o ensine.
Cobertas que aquecem mais do que o corpo
A imagem dos acolchoados empilhados chama atenção logo no início.
A irmã era friorenta.
Empilhava cobertas como quem construía uma fortaleza contra o frio.
Mas o verdadeiro aquecimento não estava nos cobertores.
Estava no convite.
Dormir junto significava enfrentar a noite acompanhado.
O frio do inverno e o medo das brigas familiares encontravam, naquele gesto, uma resposta silenciosa.
As cobertas aqueciam o corpo.
A companhia aquecia a infância.
O medo que mudava de estação
Um detalhe sutil torna a crônica especialmente bonita.
No inverno, o menino procura abrigo na cama da irmã.
No verão, a dinâmica se inverte.
É ela quem vai até o quarto dele.
O medo continua existindo.
Apenas muda de estação.
As brigas do pai e da mãe permanecem.
O que muda é a forma como os irmãos se organizam para enfrentá-las.
A frase final sintetiza essa cumplicidade:
“Ela espantava meus pavores para distrair os dela.”
Nenhum dos dois consegue eliminar o medo.
Mas conseguem dividi-lo.
O afeto como resistência
Em muitas lembranças de infância, o afeto aparece como contraponto à dureza da vida.
Nesta crônica, ele assume uma forma muito concreta.
Não está em presentes.
Não está em grandes acontecimentos.
Está na presença compartilhada durante a noite.
Enquanto os adultos vivem seus conflitos, duas crianças constroem discretamente uma rede de proteção.
Essa é uma das grandes forças de MIMMESMO: mostrar que a ternura costuma nascer nos lugares mais improváveis.
As marcas invisíveis da infância
As brigas dos pais aparecem diversas vezes ao longo da série.
Nunca ocupam totalmente o centro da narrativa.
Mas permanecem como uma presença constante, moldando comportamentos, medos e vínculos.
Aqui, elas explicam por que dormir junto era tão importante.
A infância aprende rapidamente a criar estratégias de sobrevivência emocional.
Algumas crianças procuram silêncio.
Outras inventam brincadeiras.
Outras encontram abrigo em irmãos.
Essa memória pertence a esse terceiro grupo.
Por que ler esta crônica?
Porque ela revela uma forma de amor pouco celebrada na literatura: o cuidado silencioso entre irmãos.
A partir de cobertas, noites frias e quartos escuros, Carlos Homero constrói um texto sobre proteção, medo, família e afeto.
É uma crônica delicada, capaz de mostrar que, muitas vezes, quem nos salva da solidão não elimina nossos medos — apenas permanece ao nosso lado enquanto eles passam.
Continue acompanhando MIMMESMO
A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, afeto, perdas, humor e formação humana.
Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como os pequenos gestos cotidianos podem se transformar nas lembranças mais duradouras da vida.