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Crônica 27: Quando Escrevo, Reescrevo a Mim Mesmo

Quando Escrevo, Reescrevo a Mim Mesmo

Escrever é mais do que registrar memórias

Quando escrevo, interfiro no universo simbólico do discurso que produzo. O que resulta narrado já não é exatamente aquilo que imaginei narrar quando comecei.

Entre a primeira palavra e a última frase, algo se desloca. A escrita deixa de ser apenas um registro de pensamentos para se tornar uma forma de transformação. Talvez por isso eu continue escrevendo: pela esperança de que cada texto produza alguma atualização na narrativa que construo sobre mim mesmo.

A escrita como encontro com o desejo

Meus desejos nunca morrem completamente. Permanecem ativos, silenciosos ou ruidosos, aguardando oportunidades para se manifestar.

Meu inconsciente não é um mausoléu. Se possui algo de museu, é um museu de inutilidades, memórias esquecidas, fragmentos de experiências, afetos contraditórios e perguntas sem resposta.

Ao escrever, torno-me palco dessas manifestações. Ideias surgem sem convite, lembranças retornam sem aviso e sentidos aparecem onde antes existiam apenas palavras.

O sujeito que se modifica ao escrever

Michel Foucault sugere que o sujeito não é uma entidade fixa, mas algo continuamente produzido e transformado pelos discursos que constrói.

Ao escrever, procuro justamente essa mobilidade.

De linha em linha, busco ser um sujeito modificável pelo próprio efeito discursivo do que escrevo. Não apenas alguém que produz um texto, mas alguém que também é produzido por ele.

Talvez seja uma ilusão. Talvez seja apenas esperança.

Mas é uma esperança suficientemente forte para continuar preenchendo páginas.

Literatura, subjetividade e o discurso do desejo

Jacques Lacan descreve aquilo que chamou de discurso histérico: uma forma de discurso que questiona certezas, desafia verdades estabelecidas e mantém o desejo em movimento.

Reconheço algo disso em minha própria escrita.

Escrevo não para apresentar respostas definitivas, mas para organizar inquietações. Escrevo para negociar tréguas temporárias com perguntas que dificilmente encontrarão solução permanente.

A escrita torna-se então uma vigília constante.

Uma observação silenciosa da terra de ninguém onde habitam dúvidas, desejos, medos e esperanças.

Por que continuamos escrevendo?

Talvez porque escrever seja uma maneira de suportar a complexidade da existência.

Talvez porque narrar a vida seja uma tentativa de compreendê-la.

Ou talvez porque precisamos deixar rastros de nossas passagens, mesmo sabendo que nenhuma narrativa será completa.

Escrever é um exercício contínuo de aproximação.

Nunca alcançamos totalmente aquilo que desejamos dizer. Ainda assim, continuamos tentando.

Narrar o próprio mundo

Escrevo menos para registrar feitos ou importâncias.

Escrevo porque preciso narrar como anda o meu mundo.

Primeiro para mim.

Depois para quem possa se interessar pelas pequenas coisas de uma vida comum.

Essas “minhices”, aparentemente insignificantes, possuem uma curiosa capacidade de conectar pessoas. Aproximam algumas, afastam outras, provocam identificação, desconforto, reflexão ou silêncio.

E talvez seja exatamente aí que a literatura encontre parte de sua força: na capacidade de transformar experiências particulares em espelhos compartilhados.

A escrita como possibilidade de transformação

Nenhum texto resolve definitivamente quem somos.

Mas cada texto pode alterar, ainda que minimamente, a forma como nos enxergamos.

Escrever não é apenas contar uma história.

É permitir que a própria história nos transforme enquanto a contamos.

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Cronica 27 Quando Escrevo Reescrevo a Mim Mesmo

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