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Crônica 27: Quando Escrevo, Reescrevo a Mim Mesmo

Escrever é uma forma de voltar para dentro

Ao longo das crônicas de MIMMESMO, acompanhamos lembranças de infância, figuras familiares, culpas, descobertas, brincadeiras, afetos e perdas. Mas, em algum momento, surge uma pergunta inevitável:

Por que escrever tudo isso?

Nesta vigésima sétima crônica, Carlos Homero Giacomini desloca o olhar das memórias para o próprio ato de narrá-las. O foco já não está apenas naquilo que foi vivido, mas no que acontece quando uma experiência passa pela linguagem.

Escrever, aqui, não é registrar fatos.

É transformar-se através deles.

É revisitar o passado sem a ilusão de recuperá-lo exatamente como aconteceu.

É aceitar que toda narrativa também modifica quem a produz.

Texto original da crônica

Crônica 27: Quando Escrevo, Reescrevo a Mim Mesmo

Quando escrevo interfiro no universo simbólico do discurso que produzo e o que resulta narrado já não é o que pensei que narraria, e aposto no milagre de alguma atualização à narrativa de mim mesmo. Meus desejos que nunca morrem, meu inconsciente que não é mausoléu, embora tenha muito de museu de inutilidades, fazem de mim o palco de suas performances. De linha em linha, busco ser o sujeito móvel e modificável pelo próprio efeito discursivo do que escrevo, como aponta Foucault. Posso estar iludido, mas é esta a esperança que me motiva a escrever o meu discurso histérico, como registra Lacan, que organizaria o desejo e a subjetividade, que questionaria as verdades e estabeleceria tréguas enquanto vigio a terra de ninguém e espero pelas próximas inevitáveis cargas. É menos sobre registrar feitos e importâncias, mais sobre a necessidade de narrar como anda o meu mundo, primeiro para mim, depois para quem possa se interessar por minhices de uma vida comum, mas que imbricam, conectam, aproximam e afastam as pessoas.

A escrita como transformação

Existe uma ideia comum de que escrever consiste em organizar pensamentos já prontos.

Esta crônica propõe o contrário.

O autor afirma que, ao escrever, interfere no universo simbólico do próprio discurso. Ou seja: a narrativa não apenas expressa aquilo que ele pensa. Ela altera aquilo que ele pensa.

O texto nasce de uma intenção, mas chega a um destino inesperado.

Quem escreve inicia uma jornada sem saber exatamente onde terminará.

Por isso, cada página se transforma em espaço de descoberta.

O milagre de atualizar a própria narrativa

Uma das expressões mais importantes da crônica é:

“aposto no milagre de alguma atualização à narrativa de mim mesmo.”

A frase sugere que a identidade não é fixa.

Não somos apenas aquilo que aconteceu conosco.

Somos também as histórias que contamos sobre o que aconteceu.

Ao reorganizar memórias, sentimentos e experiências, o narrador reorganiza a si mesmo.

A escrita torna-se uma ferramenta de revisão permanente da própria existência.

O inconsciente como palco

Carlos Homero descreve o inconsciente de forma curiosa.

Não como um mausoléu.

Mas como um museu de inutilidades.

A imagem carrega humor e profundidade.

Museus guardam coisas antigas, esquecidas, aparentemente sem função prática. Ainda assim, continuam ali, influenciando silenciosamente a forma como enxergamos o mundo.

O autor sugere que desejos antigos, memórias persistentes e conteúdos inconscientes continuam atuando dentro de nós.

E a escrita funciona como palco dessas manifestações.

Foucault, Lacan e a construção do sujeito

Esta é uma das crônicas mais reflexivas de MIMMESMO.

Ao mencionar Michel Foucault e Jacques Lacan, o autor aproxima sua experiência pessoal de discussões filosóficas e psicanalíticas.

A ideia central é simples:

O sujeito não é algo pronto.

Ele está em constante construção.

Cada narrativa produz efeitos sobre quem a escreve.

Cada palavra reorganiza sentidos.

Cada texto pode modificar a forma como entendemos a nós mesmos.

A escrita deixa de ser apenas comunicação e passa a ser experiência.

Narrar para compreender

Ao longo da série, o leitor encontra episódios aparentemente simples: uma bicicleta, uma nona, um barranco, uma espada de madeira, uma bala enrolada em papel colorido.

Mas esta crônica revela algo importante.

Essas histórias nunca foram apenas lembranças.

Sempre foram tentativas de compreender o mundo.

Narrar é uma forma de investigar.

Não necessariamente para encontrar respostas definitivas.

Mas para formular perguntas melhores.

Uma vida comum que encontra outras vidas

A crônica termina rejeitando qualquer pretensão de grandeza.

O autor afirma que escreve menos para registrar feitos importantes e mais para acompanhar o próprio mundo interior.

As “minhices de uma vida comum”, como ele define, tornam-se matéria literária.

Mas há um detalhe decisivo.

Nenhuma vida é apenas individual.

As experiências mais íntimas também conectam pessoas.

Aproximam.

Afastam.

Produzem reconhecimento.

Criam pontes.

Talvez seja justamente por isso que histórias aparentemente pequenas continuam interessando aos leitores.

Porque nelas encontramos fragmentos de nós mesmos.

Por que ler esta crônica?

Porque ela funciona como uma chave de leitura para toda a série MIMMESMO.

Enquanto muitas crônicas apresentam lembranças e personagens, esta revela o mecanismo por trás delas: a necessidade de escrever para compreender, reorganizar e transformar a própria experiência.

É uma reflexão sobre memória, identidade, linguagem, psicanálise, filosofia e sobre o papel da literatura na construção de quem somos.

Continue acompanhando MIMMESMO

A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, afeto, culpa, imaginação e autoconhecimento.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como cada lembrança narrada também é uma tentativa de compreender a si mesmo e ao mundo.

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