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Crônica 25 – MIMMESMO: A Solidão Como Único Espaço Legítimo Para Sentir Certas Emoções

Há culpas que a infância não sabe explicar

Nem toda criança entende a origem do próprio medo.

Às vezes, diante de acontecimentos misteriosos, ela busca dentro de si uma causa. Procura um erro, uma falta, um pecado possível. E, quando não encontra explicação no mundo, inventa uma punição íntima.

Nesta vigésima quinta crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini retorna a um episódio estranho da infância: pedras lançadas contra o telhado da casa, a mãe procurando explicações no barranco, benzeduras do padre e uma culpa silenciosa que o menino atribuía aos próprios atos.

É uma crônica sobre medo, culpa, superstição, segredo e sobre certas emoções que só encontram lugar na solidão.

Texto original da crônica

Crônica 25: A solidão como único espaço legítimo para sentir certas emoções.

Por estes mesmos anos o destino reservava uma vingança contra mim. É que vi a mãe sair às pressas do quartinho onde passava o dia costurando em meio a uma desordem completa, e procurar no alto do barranco dos fundos da casa por quem jogava pedras sobre o nosso telhado. Há semanas a família sofria esses apedrejamentos sem descobrir o que estava acontecendo, não obstante as benzeduras do padre. Eu pensava que era castigo diretamente pra mim, por causa das assombrações das casas com as tripas de mico e pedras de breu e, principalmente, pelas minhas incursões noturnas ao quartinho da menina que trabalhava lá em casa. Nada disso era confessável, o que só aumentava a causa dos apedrejamentos que eu atribuía exclusivamente aos meus pecados. Quando a empregada doméstica adolescente, preta como todas as escravinhas eram, partiu, o apedrejamento cessou. O padre disse que ela tinha o poder da telecinesia. Não havia nenhum pecado.

O medo procurando uma causa

A crônica apresenta uma situação familiar atravessada por mistério.

Pedras eram lançadas sobre o telhado.

Ninguém sabia de onde vinham.

A mãe procurava o responsável no alto do barranco.

O padre benzia.

A casa permanecia sob tensão.

Mas o centro do texto não está apenas no fenômeno externo. Está na interpretação íntima do menino.

Ele acredita que aquilo é castigo.

Não por algo que os outros soubessem.

Mas por aquilo que ele carregava em segredo.

Essa é uma das dimensões mais fortes da crônica: a infância tentando organizar o medo através da culpa.

O peso do que não pode ser confessado

O narrador afirma que nada daquilo era confessável.

Essa impossibilidade de dizer aumenta o sofrimento.

Quando a culpa não pode ser compartilhada, ela cresce dentro da criança. O silêncio se transforma em tribunal. Cada pedra no telhado parece confirmar uma condenação.

MIMMESMO trabalha aqui com um território mais sombrio da memória: aquele em que o menino não aparece apenas como vítima, nem como inocente absoluto, mas como alguém atravessado por curiosidade, medo, segredo e remorso.

Essa complexidade dá ao texto sua força literária.

Superstição, religião e explicações impossíveis

A presença do padre amplia o ambiente de superstição e moralidade.

As benzeduras não resolvem o mistério.

A explicação final, atribuída à telecinesia da menina que trabalhava na casa, desloca o problema para o campo do fantástico, do inexplicável e do preconceito de época.

A crônica não oferece uma resposta confortável.

Ao contrário, revela como famílias, religiões e comunidades muitas vezes buscavam explicações estranhas para aquilo que não conseguiam compreender.

Nesse ponto, o texto também expõe uma violência social: a forma como a menina trabalhadora, adolescente e preta, é atravessada por suspeita, servidão e interpretação sobrenatural.

A infância diante da culpa e da desigualdade

Há uma frase especialmente dura no texto: “preta como todas as escravinhas eram”.

Ela não deve ser lida como enfeite narrativo.

É uma denúncia de época, ainda que formulada pela memória do narrador. Mostra como certas estruturas sociais persistiam dentro das casas, naturalizadas pela rotina, pelo trabalho doméstico e pela desigualdade.

A crônica incomoda porque não separa a culpa individual da culpa histórica.

Há o menino com seus segredos.

Há a casa com seus medos.

Há a menina em posição de vulnerabilidade.

Há uma sociedade inteira naturalizando hierarquias.

Por que ler esta crônica?

Porque ela não oferece uma memória fácil.

É uma crônica sobre infância, mas não sobre inocência idealizada.

Ela fala de culpa, medo, desejo, religião, preconceito, trabalho doméstico e da maneira como uma criança pode transformar acontecimentos externos em punição íntima.

Em MIMMESMO, a memória não serve apenas para consolar. Serve também para expor zonas difíceis da experiência humana.

Continue acompanhando MIMMESMO

A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, culpa, afeto, vergonha, medo e formação humana.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como a literatura pode transformar lembranças íntimas em reflexão sobre aquilo que somos, escondemos e carregamos ao longo da vida.

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