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Crônica 26 – MIMMESMO: A Lucidez Íntima de Uma Mulher Marcada Pela Vida

Algumas pessoas enxergam a vida sem precisar fingir inocência

Há pessoas que, mesmo marcadas pelo corpo, conservam uma lucidez rara.

Não uma lucidez fria, distante ou intelectualizada. Mas uma lucidez íntima, construída pela experiência, pela observação da vida e pela recusa silenciosa de repetir as hipocrisias do mundo.

Nesta vigésima sexta crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini retorna à figura da vovó, mãe de sua mãe, uma mulher que morava nos fundos da casa, carregava as sequelas de um derrame, caminhava com dificuldade, mas preservava altivez, vaidade, desejo, humor e uma impressionante capacidade de conversar sobre temas que muitos preferiam esconder.

É uma crônica sobre velhice, dignidade, corpo, feminilidade, hipocrisia social e sobre a sabedoria de uma mulher que compreendia certas dores humanas antes de julgá-las.

Texto original da crônica

 

Crônica 26: A lucidez íntima de uma mulher marcada pela vida, contraposta à hipocrisia social.

Com a mãe da minha mãe, a vovó, a conversa era outra. Ela morava numa casa nos fundos da nossa. Caminhava arrastando a perna esquerda com o braço do mesmo lado fletido e colado ao corpo; tinha sofrido um derrame. De minutos em minutos, recolhia do canto da boca, com um lenço encabidado no braço paralítico, a saliva que sua bochecha não conseguia reter, gesto precedido por uma pigarreada desagradável. Obtinha do pai durão o que desejasse: “sim senhora, senhora minha sogra”. Era passeadeira e repetia suas caminhadas arrastadas até o centro da cidade diariamente, bem arrumada, vaidosa que também era, a pensar em namorado. Se dizia descendente por parte de mãe da nobreza castelhana das margens do Rio da Prata. Era altiva, boa leitora de romances, gargalhante, e conversava muito comigo. Uma vez, sentados num banco de cimento que havia no alto da escada que subia para as nossas casas, trocávamos ideias — incomuns do ponto de vista da hipocrisia que reinava sobre o tema —, a respeito de gravidez na adolescência. Ela me disse mais ou menos isso: “Este é um drama que sempre existiu, mas era muito escondido. Meninas que passaram por isso sofreram como sofrem as de hoje.”

O corpo ferido e a dignidade preservada

A crônica apresenta uma mulher marcada por um derrame, mas não reduzida a ele.

O corpo aparece com suas limitações: a perna arrastada, o braço fletido, o lenço preso ao braço paralítico, a saliva que precisava ser recolhida, a pigarreada desagradável. O texto não suaviza a cena. Não transforma a velhice em imagem decorativa.

Essa franqueza é importante.

A vovó é lembrada com afeto, mas sem idealização. Ela aparece inteira: corpo, desejo, vaidade, fragilidade e força.

Em MIMMESMO, a memória não apaga as marcas difíceis da vida. Ela as incorpora.

A vaidade como resistência

Apesar das sequelas, a vovó continuava passeadeira.

Caminhava até o centro da cidade, bem arrumada, vaidosa e ainda pensando em namorado.

Esse detalhe é decisivo.

Ele impede que a personagem seja vista apenas como idosa, doente ou dependente. Ela permanece mulher. Permanece desejante. Permanece socialmente ativa.

Sua vaidade não é futilidade.

É afirmação de existência.

É uma forma de dizer que o corpo ferido ainda pertence a alguém que quer viver, circular, conversar, rir e ser vista.

A autoridade de quem não precisava levantar a voz

A relação com o pai durão também revela sua força.

Diante dela, ele obedecia:

“Sim senhora, senhora minha sogra.”

A frase carrega humor, respeito e uma inversão interessante de poder. A mulher fisicamente limitada exercia uma autoridade que não dependia da força.

Sua presença bastava.

Essa autoridade talvez viesse da idade, da personalidade, da história ou da altivez que ela atribuía à própria origem castelhana.

O fato é que ela ocupava espaço.

Mesmo morando nos fundos.

Mesmo caminhando com dificuldade.

Mesmo carregando no corpo as marcas do derrame.

A conversa que confronta a hipocrisia

O ponto central da crônica está na conversa sobre gravidez na adolescência.

Sentados no banco de cimento, avó e neto discutem um tema que, em muitos ambientes familiares, seria tratado com moralismo, vergonha ou silêncio.

Mas a vovó não reage com escândalo.

Ela reconhece a continuidade histórica do sofrimento.

Diz que esse drama sempre existiu, mas era muito escondido. E que as meninas de antes sofriam como sofrem as de hoje.

Essa fala revela lucidez.

Ela não transforma a gravidez na adolescência em novidade moral, decadência dos tempos ou falha individual isolada. Enxerga o drama humano por trás da aparência social.

A sabedoria contra o julgamento

Há uma diferença profunda entre julgamento e compreensão.

A hipocrisia social costuma agir escondendo aquilo que não deseja enfrentar. O problema não desaparece; apenas fica coberto por silêncio, vergonha e punição.

A vovó parecia saber disso.

Talvez por ter vivido muito.

Talvez por ter lido romances.

Talvez por ter observado mulheres demais carregando dores que a sociedade fingia não ver.

Sua fala é simples, mas forte: o sofrimento das meninas não começou agora. Apenas era menos admitido.

Essa percepção torna a crônica atual, embora nasça de uma lembrança antiga.

Por que ler esta crônica?

Porque ela apresenta uma personagem feminina complexa: frágil no corpo, mas lúcida no olhar.

A vovó dos fundos aparece como mulher vaidosa, leitora, gargalhante, altiva e capaz de conversar sobre temas difíceis sem repetir automaticamente a moral dominante.

É uma crônica sobre família, velhice, memória, desejo, dignidade e sobre a coragem silenciosa de enxergar a dor humana sem se esconder atrás da hipocrisia.

Continue acompanhando MIMMESMO

A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, culpa, afeto, velhice, lucidez e formação humana.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como as figuras familiares, mesmo em cenas simples, revelam verdades profundas sobre a vida.

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