Há homens que constroem mais do que paredes
Algumas pessoas permanecem na memória pelaquilo que disseram.
Outras, pelo que fizeram.
E existem aquelas que continuam vivas justamente pelo silêncio que deixaram.
Nesta décima quinta crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini apresenta o vovô, companheiro da vovó dos fundos: um homem cristão, conservador, integralista, trabalhador, melancólico, talvez depressivo, mas lembrado sobretudo como homem bom, honesto e silencioso.
A crônica é curta, mas carrega uma densidade particular.
Em poucas linhas, constrói o retrato de um homem marcado pelo trabalho, pela culpa, pela dureza moral de seu tempo e por uma sensibilidade que talvez só aparecesse escondida nos cantos, depois dos castigos e das correções.
Texto original da crônica
Crônica 15 – O Pedreiro dos Silêncio
Nesse tempo, o vovô que era apaixonado por ela já tinha morrido. Era um cristão conservador, integralista, grande trabalhador e, no mínimo, melancólico, se não depressivo. Um homem bom, silencioso, honesto, que nas poucas vezes que corrigia os filhos com castigos físicos, se escondia pelos cantos pra chorar arrependido sem desmoralizar a corrigenda. O pedreiro dos porões de pedra e das pontes das estradas.
O homem entre a dureza e o arrependimento
A figura do vovô aparece atravessada por tensões.
Ele era conservador.
Integralista.
Cristão.
Trabalhador.
Silencioso.
Honesto.
Melancólico.
Talvez depressivo.
A crônica não tenta simplificá-lo.
Não o transforma em santo.
Também não o reduz a suas contradições.
O detalhe mais forte está no modo como corrigia os filhos. Nas poucas vezes em que recorria a castigos físicos, retirava-se depois para chorar escondido, arrependido, sem desmoralizar a própria autoridade.
Esse gesto revela uma masculinidade antiga e trágica.
Um homem que acreditava cumprir um dever, mas sofria com aquilo que fazia.
O silêncio como linguagem
Em MIMMESMO, o silêncio aparece várias vezes como forma de presença.
O pai silencioso.
Os afetos que não se explicam.
Os gestos que substituem palavras.
Aqui, o silêncio do vovô parece mais pesado.
Não é apenas recolhimento.
É contenção.
É sofrimento guardado.
É a impossibilidade de dizer aquilo que talvez sentisse.
Chorar escondido para não desmoralizar a corrigenda mostra um homem dividido entre o papel que acreditava precisar cumprir e a dor íntima que esse papel lhe causava.
O pedreiro dos porões e das pontes
A última frase da crônica é decisiva:
“O pedreiro dos porões de pedra e das pontes das estradas.”
Em poucas palavras, o autor transforma o vovô em imagem.
Um homem que construiu bases e passagens.
Porões e pontes.
Estruturas escondidas e caminhos públicos.
O porão sustenta.
A ponte liga.
Essa dupla imagem dá ao personagem uma força simbólica. Talvez o vovô também tenha sido isso na família: alguém que sustentava em silêncio e, ao mesmo tempo, ajudava os outros a atravessar.
Trabalho, melancolia e dignidade
Há uma geração de homens que foi educada para trabalhar muito e falar pouco.
A dor era guardada.
O cansaço era normalizado.
A tristeza não recebia nome.
Quando Carlos Homero escreve que o vovô era “no mínimo, melancólico, se não depressivo”, ele abre uma fresta importante.
Permite olhar para esses homens antigos não apenas como figuras de autoridade, mas como sujeitos atravessados por sofrimento psíquico, ainda que sem vocabulário ou ambiente para expressá-lo.
A crônica, assim, não é apenas memória familiar.
É também leitura de uma época.
Por que ler esta crônica?
Porque ela revela, em poucas linhas, uma figura complexa.
O vovô é lembrado como trabalhador, honesto, conservador, amoroso à sua maneira e carregado de silêncios. Sua imagem ajuda a compor o mosaico familiar de MIMMESMO, onde cada personagem aparece com suas grandezas, fragilidades e contradições.
É uma crônica breve, mas importante para entender a arquitetura emocional da série.
Continue acompanhando MIMMESMO
A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre família, memória, infância, ancestralidade, afeto, culpa e silêncio.
Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como figuras aparentemente discretas podem sustentar grandes partes da nossa história.