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Crônica 14 – MIMMESMO: Tijolos Quentes e Moedinhas Frias

A infância também aprende entre a culpa e o cuidado

Nem toda memória afetiva é limpa.

Algumas lembranças chegam misturadas a pequenas culpas, gestos de carinho, desobediências, arrependimentos e perguntas que continuam abertas muitos anos depois.

Nesta décima quarta crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini volta à figura da vovó dos fundos, agora a partir de uma lembrança marcada por contradições: os pequenos furtos da bolsa, o desejo infantil de alugar bicicleta, a prontidão em atender seus pedidos e o cuidado delicado de aquecer tijolos no fogão a lenha para proteger seus pés no inverno.

É uma crônica sobre infância, culpa, afeto e sobre os modos imperfeitos com que uma criança tenta equilibrar desejo, remorso e amor.

Texto original da crônica

 

Crônica 14 – Tijolos Quentes e Moedinhas Frias

Como ingratidão a essas e outras tantas lições, eu, de forma reincidente, roubava uns trocados da bolsa da vovó. Crime premeditado, pois sabia o dia que ela recebia a pensão e esperava que se afastasse bastante do quarto pra ter certeza de que seria mais ligeiro que ela com suas sequelas de derrame. Ela nunca notava e eu sempre me arrependia, mas os furtos eram inevitáveis, pois eu não tinha outros meios de obter o dinheiro pra alugar bicicleta pra as incríveis incursões de sábado pela cidade junto aos meus camaradas. Pra compensar, além de me arrepender, eu estava sempre pronto a atender as ordens da vovó. Como cúmplice, no caso da compra de umas garrafinhas vermelhas de soda que ela misturava a um traguinho de bebida alcoólica vetado pelo médico; como camareiro, quando, nos invernos, eu esquentava tijolos no fogão a lenha, envolvia em toalhas, ajeitava na cama junto aos seus pés e arrumava os cobertores, aconchegadamente, em torno do conjunto. Me perdoa, vovó? Ou será que ele sabia?

A culpa como parte da memória

Esta crônica não procura purificar a infância.

Ao contrário, ela assume uma contradição incômoda: a criança que amava a vovó também roubava seus trocados.

O narrador adulto nomeia o gesto com dureza.

Chama de crime.

Reconhece a premeditação.

Assume a reincidência.

Essa franqueza é uma das marcas mais fortes de MIMMESMO. A memória não aparece como território idealizado, mas como espaço onde afeto e falha convivem.

O menino queria dinheiro para alugar bicicleta.

Queria viver as incursões de sábado pela cidade com os camaradas.

E, sem outros meios, recorria à bolsa da vovó.

As moedinhas frias e o desejo de liberdade

As moedas roubadas não aparecem como símbolo de ganância.

Elas representam movimento.

Representam a bicicleta.

Representam a cidade.

Representam a aventura possível de um sábado.

A infância frequentemente mede o mundo por pequenas quantias.

Um trocado pode ser liberdade.

Uma moeda pode abrir a cidade inteira.

O gesto continua errado.

Mas a crônica permite entender sua lógica emocional: a urgência infantil de participar da vida, de acompanhar os amigos, de não ficar para trás.

O cuidado como tentativa de reparação

Depois do furto vinha o arrependimento.

E, com ele, a disposição para servir.

O menino se tornava cúmplice e camareiro.

Comprava as garrafinhas vermelhas de soda que a vovó misturava a um traguinho de bebida alcoólica proibido pelo médico.

Nos invernos, aquecia tijolos no fogão a lenha, enrolava-os em toalhas, ajeitava-os junto aos pés dela e organizava os cobertores ao redor.

A cena dos tijolos é uma das imagens mais bonitas da crônica.

Nela, o cuidado deixa de ser abstrato.

Ganha peso, calor e textura.

Tijolos quentes como linguagem de afeto

Há afetos que se dizem com palavras.

Outros se dizem com serviços.

Aquecer tijolos para a cama da vovó era uma forma concreta de ternura.

O menino talvez não soubesse formular seu amor.

Talvez também não conseguisse reparar completamente a culpa dos pequenos furtos.

Mas sabia obedecer.

Sabia ajudar.

Sabia aquecer.

O cuidado, nesse caso, aparece como tentativa imperfeita de compensação.

Não apaga a falta.

Mas revela o vínculo.

A pergunta que permanece

A crônica termina com uma pergunta direta:

“Me perdoa, vovó? Ou será que ele sabia?”

Essa pergunta desloca todo o texto.

Até então, o narrador imagina que a vovó nunca notava.

Mas a dúvida final abre outra possibilidade: talvez ela soubesse.

Talvez percebesse.

Talvez permitisse.

Talvez aceitasse aquele pequeno furto como parte de uma relação mais complexa, feita de afeto, velhice, dependência, desejo infantil e silêncio.

A pergunta não precisa de resposta.

Sua força está justamente em permanecer.

Por que ler esta crônica?

Porque ela mostra que a memória afetiva também inclui culpa.

Nem todas as lembranças familiares são feitas apenas de carinho, comida, abraços e conversas bonitas.

Algumas carregam pequenos erros, remorsos antigos e gestos de reparação.

Esta crônica interessa porque não simplifica a infância. Mostra a criança como alguém capaz de amar e falhar ao mesmo tempo.

E talvez seja exatamente isso que a torna tão humana.

Continue acompanhando MIMMESMO

A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, culpa, afeto e formação humana.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como pequenas lembranças podem revelar as contradições mais profundas da vida.

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