Algumas pessoas não perdem a grandeza mesmo quando o corpo falha
Há figuras familiares que permanecem na memória não apenas pelo afeto, mas pela força de sua presença.
A mãe da mãe, a vovó dos fundos, aparece nesta décima terceira crônica de MIMMESMO como uma mulher marcada pelo corpo ferido, mas não reduzida a ele.
Ela havia sofrido um derrame.
Caminhava com dificuldade.
Arrastava a perna esquerda.
Carregava o braço do mesmo lado fletido e colado ao corpo.
Mas nada disso apagava sua vaidade, sua inteligência, seu gosto pelas caminhadas, sua autoridade familiar, sua gargalhada e sua disposição para conversar sobre assuntos que muitos preferiam esconder.
Esta é uma crônica sobre velhice, dignidade, lucidez e a altivez de uma mulher que continuava inteira mesmo depois de ter sido parcialmente vencida pelo corpo.
Texto original da crônica
Crônica 13 – A Altivez da Vó do Fundos
Com a mãe da minha mãe, a vovó, a conversa era outra. Ela morava numa casa nos fundos da nossa. Caminhava arrastando a perna esquerda com o braço do mesmo lado fletido e colado ao corpo; tinha sofrido um derrame. De minutos em minutos, recolhia do canto da boca, com um lenço encabidado no braço paralítico, a saliva que sua bochecha não conseguia reter, gesto precedido por uma pigarreada desagradável. Obtinha do pai durão o que desejasse: “sim senhora, senhora minha sogra”. Era passeadeira e repetia suas caminhadas arrastadas até o centro da cidade diariamente, bem arrumada, vaidosa que também era, a pensar em namorado. Se dizia descendente por parte de mãe da nobreza castelhana das margens do Rio da Prata. Era altiva, boa leitora de romances, gargalhante, e conversava muito comigo. Uma vez, sentados num banco de cimento que havia no alto da escada que subia para as nossas casas, trocávamos ideias — incomuns do ponto de vista da hipocrisia que reinava sobre o tema —, a respeito de gravidez na adolescência. Ela me disse mais ou menos isso: “Este é um drama que sempre existiu, mas era muito escondido. Meninas que passaram por isso sofreram como sofrem as de hoje.”
A velhice sem idealização
Carlos Homero não constrói uma imagem adocicada da avó.
A descrição é direta.
O corpo aparece com suas limitações, seus gestos repetidos, sua saliva difícil de conter, sua pigarreada desagradável. A memória preserva aquilo que era belo e aquilo que causava incômodo.
Essa franqueza dá força ao texto.
A vovó não é transformada em personagem decorativa. Ela surge inteira, com corpo, desejo, vaidade, autoridade e lucidez.
MIMMESMO tem essa característica: não limpa excessivamente a memória. Mostra a vida como ela aparece, com seus afetos e desconfortos misturados.
A mulher que continuava caminhando
Mesmo depois do derrame, a vovó continuava passeadeira.
Arrastava a perna até o centro da cidade.
Ia bem arrumada.
Vaidosa.
Pensando em namorado.
Há nessa imagem uma potência rara.
A velhice não aparece como apagamento do desejo.
O corpo havia mudado, mas a mulher continuava habitando o mundo com vontade própria.
Ela seguia caminhando.
Seguia se arrumando.
Seguia desejando.
Seguia conversando.
A autoridade diante do pai durão
Um dos detalhes mais expressivos da crônica é a relação entre a vovó e o pai do narrador.
O pai, descrito em outras crônicas como figura dura, parecia ceder diante dela.
“Sim senhora, senhora minha sogra.”
A frase carrega respeito, submissão e talvez um certo humor familiar.
Essa mulher, fisicamente limitada, possuía uma autoridade que não dependia da força do corpo.
Sua presença bastava.
A altivez como forma de resistência
A vovó dizia descender da nobreza castelhana das margens do Rio da Prata.
Não importa aqui comprovar a genealogia.
Literariamente, o dado importa porque revela como ela se via.
Havia nela uma consciência de valor.
Uma postura.
Uma narrativa sobre si mesma.
Essa altivez funcionava como resistência ao declínio físico.
Mesmo arrastando a perna, mesmo recolhendo a saliva, mesmo carregando as marcas do derrame, ela mantinha a cabeça simbólica erguida.
A leitora que conversava sem hipocrisia
A vovó era boa leitora de romances.
Gargalhante.
Conversadora.
E falava com o narrador sobre temas que a hipocrisia familiar e social costumava encobrir.
A conversa sobre gravidez na adolescência é o ponto mais forte da crônica.
Sentados no banco de cimento, no alto da escada que subia para as casas, avó e neto falam sobre um tema difícil.
Ela não condena.
Não moraliza.
Não finge surpresa.
Apenas reconhece que o drama sempre existiu, embora antes fosse escondido.
A lucidez de quem viu o mundo se repetir
A frase da vovó revela uma compreensão profunda da vida social.
Muitas dores humanas não são novas.
Apenas mudam de visibilidade.
O que antes era escondido, abafado ou resolvido sob vergonha, hoje aparece de outras formas. Mas o sofrimento das meninas permanece.
Essa percepção tira a conversa do campo do escândalo e a coloca no campo da compaixão.
A vovó enxerga o drama antes do julgamento.
E isso talvez diga muito sobre sua inteligência e sua humanidade.
Por que ler esta crônica?
Porque ela apresenta uma figura feminina forte, contraditória e profundamente humana.
A vovó dos fundos não é lembrada apenas como avó. É lembrada como mulher: vaidosa, lúcida, altiva, leitora, desejante e capaz de conversar sobre a vida sem a máscara da hipocrisia.
É uma crônica sobre família, envelhecimento, corpo, desejo, moral social e memória afetiva.
Continue acompanhando MIMMESMO
A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, ancestralidade, afeto e formação humana.
Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como as pessoas comuns da vida familiar podem revelar força, lucidez e grandeza literária.