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Crônica 17 – Os que partem, os que ficam

A infância inventa seus próprios parques

Antes dos brinquedos planejados, das piscinas artificiais e dos parques aquáticos, existiam as invenções da rua.

A infância encontrava diversão onde os adultos viam apenas telhados, calhas, oficinas, chuva e risco.

Nesta décima sétima crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini retorna a uma das muitas casas em que morou e recupera uma cena simples: um barracão de oficina, uma calha enorme, a água da chuva transformada em cachoeira e crianças em fila para receber no corpo a descarga líquida.

É uma crônica breve, mas muito visual. Em poucas linhas, ela fala de infância, deslocamento, precariedade, invenção e da capacidade das crianças de transformar o mundo disponível em aventura.

Texto original da crônica

Crônica 17 – Os que partem, os que ficam

Em frente a uma das primeiras das vinte casas em que morei havia um grande barracão de oficina de automóveis cujo extenso telhado recolhia numa calha de quinze centímetros de diâmetro as águas das chuvas que transformavam aquele dreno em potente cachoeira. A gurizada fazia fila pra sofrer no lombo a descarga líquida nocauteante. Em parques aquáticos nunca tínhamos ouvido falar.

 

A casa como ponto de passagem

A crônica começa com uma informação que chama atenção: uma das primeiras das vinte casas em que o narrador morou.

Esse dado abre uma dimensão importante da série MIMMESMO.

A memória não está presa a uma única casa, a uma única rua ou a uma única paisagem. Ela se desloca.

Há casas que ficam para trás.

Há pessoas que partem.

Há lugares que permanecem apenas como fragmentos.

Ao mencionar as vinte casas, o texto sugere uma vida marcada por mudanças, deslocamentos e recomposições. Mas, mesmo em meio a tantas partidas, alguns detalhes ficam.

Neste caso, ficou a calha.

Ficou a água.

Ficou a fila da gurizada.

A cachoeira improvisada

O barracão da oficina de automóveis não foi construído para divertir crianças.

Seu telhado apenas recolhia a chuva.

Sua calha apenas escoava água.

Mas a infância tem o talento de rebatizar as coisas.

O dreno virava cachoeira.

A descarga de água virava brinquedo.

A dor no lombo virava prova de coragem.

O que para os adultos seria apenas consequência da chuva, para as crianças era acontecimento.

A frase final reforça essa distância entre mundos:

“Em parques aquáticos nunca tínhamos ouvido falar.”

O corpo como medida da brincadeira

A infância narrada por Carlos Homero é uma infância física.

O corpo aparece constantemente como território de experiência.

Ele cai.

Dói.

É chacoalhado.

Leva água no lombo.

Sente frio.

Sente vergonha.

Sente prazer.

Aqui, a diversão não é limpa, protegida ou confortável. Ela envolve impacto. A água é “nocauteante”. A brincadeira tem força, peso e risco.

Ainda assim, a gurizada fazia fila.

Porque o sofrimento, na lógica da infância, muitas vezes se mistura à alegria.

O humor seco da memória

A crônica é curta, mas carrega humor.

Não há sentimentalismo excessivo.

Não há explicação moral.

Há apenas a cena: crianças esperando a vez de apanhar da água que descia da calha.

O humor nasce da precisão do olhar.

E também da comparação final com os parques aquáticos, que situa a memória em outro tempo, quando a diversão não era comprada, organizada ou tematizada.

Era inventada.

Por que ler esta crônica?

Porque ela mostra como a literatura pode nascer de uma cena mínima.

Uma calha de oficina, uma chuva forte e crianças enfileiradas bastam para revelar uma época, uma forma de brincar e uma maneira de habitar o mundo.

É uma crônica sobre infância, improviso, memória e sobre os lugares que permanecem mesmo quando já partimos deles.

Continue acompanhando MIMMESMO

A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, deslocamentos, afetos e formação humana.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como pequenas cenas do cotidiano podem se transformar em literatura.

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