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Crônica 31 – MIMMESMO O Condomínio dos Desafetos Familiares

Há humilhações familiares que não terminam quando a discussão acaba

Algumas lembranças da infância não chegam inteiras.

Permanecem como resquícios.

Vozes alteradas no corredor.

Frases cruéis repetidas entre parentes.

Gestos de ostentação.

Uma mãe tremendo de raiva enquanto tenta devolver, em palavras, as humilhações que recebeu durante anos.

Nesta trigésima primeira crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini revisita um ambiente familiar marcado por desigualdade econômica, ressentimento, preconceito social e disputas entre mulheres que compartilhavam parentesco e proximidade, mas não acolhimento.

O chamado “condomínio dos desafetos familiares” torna-se cenário de uma guerra feita de dinheiro, roupas, joias, livros, vergonha e ataques dirigidos exatamente aos pontos mais sensíveis de cada pessoa.

É uma crônica sobre humilhação, orgulho, classe social, violência verbal e as marcas que os conflitos entre adultos deixam na memória das crianças.

Texto original da crônica 

 

Crônica 31 – O Condomínio dos Desafetos Familiares

Da mesma época, guardo resquícios de discussões terríveis de minha mãe com as tias vizinhas no condomínio dos desafetos familiares. Elas tinham dinheiro e pertenciam ao pobre pináculo daquela sociedade de ricos extrativistas de uma cidade sem encantos. Por conta disso, andavam a dizer coisas que humilhavam minha mãe: pobrezinha, a gente compreende, você não passa de uma coloninha; você não viu que esse menino está com as fraldas mijadas; se precisar eu te empresto uma roupa para o jantar; veja querida, tá vendo esse anelzinho, o brilhante tem o dobro do tamanho do da fulana. Então, quando em vez, dadas as circunstâncias, a mãe enfurecida saia ao corredor dos apartamentos e, tremendo, fazia um destampatório a respeito das dificuldades que as tias tinham de falar em público, a respeito de nunca terem lido um livro na vida, a respeito de não saberem vestir bem as filhas mesmo com todo o seu dinheiro, a respeito de não merecerem existir.

O parentesco sem acolhimento

A expressão “condomínio dos desafetos familiares” concentra a atmosfera da crônica.

As personagens moravam próximas.

Eram parentes.

Compartilhavam corredores, refeições, encontros e uma história familiar.

Mas essa proximidade não produzia solidariedade.

Produzia vigilância.

Comparação.

Julgamento.

Disputa.

A família, que poderia representar proteção, aparece como espaço de exposição e agressão. As tias conheciam as fragilidades da mãe e sabiam exatamente onde feri-la.

A violência não precisava ser física.

Bastavam algumas palavras cuidadosamente escolhidas.

A crueldade disfarçada de preocupação

As frases dirigidas à mãe são formuladas como observações aparentemente prestativas.

“Pobrezinha, a gente compreende.”

“Se precisar, eu te empresto uma roupa.

“Você não viu que esse menino está com as fraldas mijadas?”

Mas o cuidado é apenas aparência.

Por baixo dele existe desprezo.

A falsa compaixão serve para reafirmar uma hierarquia: quem tem dinheiro se coloca no lugar de quem observa, corrige, oferece e julga; quem tem menos é empurrado para a posição de incapaz, desarrumada ou inferior.

A crônica expõe bem essa forma de violência social.

Não é preciso insultar diretamente quando a própria ajuda é oferecida como humilhação.

Dinheiro, aparência e distinção social

As tias pertenciam ao que o narrador chama ironicamente de “pobre pináculo” de uma sociedade de ricos extrativistas.

A expressão desmonta a pretensão daquele grupo.

Havia dinheiro.

Havia joias.

Havia roupas.

Havia comparação de brilhantes.

Mas o texto sugere que faltavam outros repertórios: leitura, capacidade de expressão, elegância e sensibilidade.

O dinheiro aparece como instrumento de distinção social, mas também como matéria de ridículo.

A ostentação do anel não revela apenas riqueza.

Revela a necessidade de medir valor por tamanho, preço e superioridade em relação aos outros.

A mãe como alvo e combatente

A mãe não permanece silenciosa.

Em determinados momentos, explode.

Sai ao corredor dos apartamentos.

Treme.

Faz um destampatório.

Ataca os pontos em que acredita que as tias são vulneráveis: a dificuldade de falar em público, a falta de leitura, a maneira de vestir as filhas, a ausência de mérito apesar do dinheiro.

Sua reação não é serena.

Também é violenta.

E o texto não tenta escondê-la.

Essa é uma das forças de MIMMESMO: os personagens não são organizados entre inocentes e culpados absolutos. São pessoas feridas que também ferem.

Quando a defesa se transforma em destruição

A mãe reage para recuperar a dignidade que lhe foi retirada.

Mas sua resposta também ultrapassa o confronto pontual.

Ao afirmar que as tias não mereciam existir, a agressão deixa de atingir comportamentos e passa a negar as próprias pessoas.

A crônica mostra como humilhações repetidas podem acumular força até produzir explosões desproporcionais.

Isso não torna a reação justa.

Torna-a compreensível dentro de uma dinâmica de ressentimento, vergonha e violência familiar prolongada.

No corredor, ninguém vence.

As palavras apenas mudam de direção.

A criança que escuta as guerras dos adultos

O narrador guarda “resquícios”.

Essa palavra é importante.

Talvez não recorde cada discussão.

Talvez não compreendesse completamente as diferenças econômicas, as vaidades e os ressentimentos das mulheres adultas.

Mas percebeu a atmosfera.

As crianças nem sempre entendem os argumentos de uma briga familiar.

Ainda assim, registram o tom das vozes, o medo, a vergonha, o tremor e a sensação de que algo pode se romper.

Esses resquícios permanecem como parte da formação emocional.

Classe social, cultura e ressentimento

A crônica não trata apenas de uma discussão entre parentes.

Também fala sobre classe social.

As tias usam o dinheiro como critério de superioridade. A mãe responde usando a cultura, a leitura e a capacidade de falar em público como critérios de distinção.

De ambos os lados, existe uma disputa por valor.

Quem é melhor?

Quem possui mais?

Quem sabe mais?

Quem se veste melhor?

Quem merece respeito?

O conflito revela que a humilhação social pode assumir formas diferentes. O dinheiro despreza a pobreza. A cultura despreza a ignorância. E ambas podem se transformar em armas quando usadas para reduzir o outro.

A família como território de memória e conflito

Ao longo de MIMMESMO, a família aparece como fonte de acolhimento, proteção, humor, medo e violência.

Há avós que alimentam.

Irmãos que protegem.

Pais que escutam.

Mas também há brigas, silêncios, ressentimentos e humilhações.

Esta crônica amplia esse retrato.

Mostra que os vínculos familiares não são naturalmente afetivos apenas porque existe parentesco.

Às vezes, a proximidade aumenta a capacidade de ferir.

Quem conhece nossa história também conhece nossas vulnerabilidades.

Por que ler esta crônica?

Porque ela enfrenta uma dimensão frequentemente escondida das relações familiares: a crueldade praticada por meio da comparação, da falsa ajuda e da humilhação social.

O texto fala sobre dinheiro, orgulho, leitura, aparência, ressentimento e sobre uma criança que cresceu cercada por discussões cujos ecos ainda permanecem.

É uma crônica desconfortável, mas necessária para compreender que a memória familiar também é feita daquilo que gostaríamos de não ter ouvido.

Continue acompanhando MIMMESMO

A série MIMMESMO reúne crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, afeto, desigualdade, vergonha, humor e formação humana.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como os conflitos aparentemente particulares de uma família podem revelar tensões sociais e emocionais presentes em muitas outras vidas.

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