A infância também sabia fabricar medo
Durante o dia, as mesmas crianças podiam parecer inocentes.
Circulavam pelas ruas, brincavam, corriam, invadiam quintais, colhiam frutas às escondidas e conviviam com os vira-latas conhecidos do bairro.
Mas, à noite, alguma coisa mudava.
Nesta vigésima quarta crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini revisita as travessuras noturnas da gurizada, quando os meninos abandonavam a aparência angelical e se transformavam em pequenos fabricantes de assombrações.
Com um prego, uma tripa-de-mico e um pedaço de pedra de breu, criavam sons de ventos uivantes para assustar os moradores das casas de madeira.
É uma crônica sobre rua, infância, medo, invenção, cumplicidade e sobre as pequenas maldades engenhosas que só o tempo consegue transformar em literatura.
Texto original da crônica
Crônica 24: Assombrações da rua
À noite, vagando de casa em casa pelas mesmas ruas em que durante o dia pousávamos de querubins, trocávamos o chapéu e nos transformávamos em assombrações. Depois do almoço, nas mesmas ocasiões em que surrupiávamos as frutas dos quintais, nos esgueirávamos pra fincar um prego numa das vigas daquelas casas de madeira aproveitando as sonecas dos moradores — vira-latas velhos conhecidos rabeando e se esfregando em nós. A quadrilha, voltávamos a cena do crime após escurecer, amarrávamos uma tripa-de-mico naquele prego e a esticávamos vigorosamente até distante da casa para facilitar a fuga. Então, meu primo L, líder e especialista no assunto, atritava um pedaço de pedra de breu sobre a tripa pra obter o efeito apavorante de ventos uivantes a assombrar a moradia. Os vira-latas, com o rabo no meio das pernas, uivavam como breu na tripa, se esfregando na gurizada conhecida. Não lembro de ter visto algum dia uma janela se abrir.
A rua como território duplo
A crônica começa com uma oposição precisa.
Durante o dia, os meninos posavam de querubins.
À noite, tornavam-se assombrações.
Essa transformação revela a rua como território duplo: espaço de convivência e, ao mesmo tempo, espaço de transgressão.
De dia, havia brincadeira, frutas surrupiadas, cães conhecidos e certa aparência de normalidade.
À noite, a mesma gurizada voltava aos lugares já preparados para executar o plano.
O bairro inteiro se tornava palco.
As casas de madeira, os quintais, os vira-latas e as vigas compunham o cenário de uma pequena operação clandestina.
A engenharia da assombração
O método era elaborado.
Primeiro, o prego era fincado durante a tarde, aproveitando a soneca dos moradores.
Depois, ao anoitecer, a quadrilha voltava.
Amarrava a tripa-de-mico.
Esticava o fio para longe da casa.
Garantia uma rota de fuga.
E então entrava em cena o primo L, líder e especialista no assunto.
Com uma pedra de breu, produzia o efeito sonoro.
O objetivo era claro: simular ventos uivantes e assombrar a moradia.
A graça da crônica está justamente nessa mistura de artesanato, malandragem e teatro de terror infantil.
O medo como brincadeira
A infância não apenas sente medo.
Ela também aprende a fabricá-lo.
Neste texto, os meninos não são vítimas da assombração.
São seus autores.
Criam o som.
Controlam a distância.
Escolhem a casa.
Planejam a fuga.
Há nisso uma inversão interessante: aquilo que normalmente assusta crianças passa a ser usado por elas para assustar adultos.
Ou, pelo menos, tentar.
Porque o final mostra uma frustração silenciosa.
Nenhuma janela se abria.
Talvez ninguém fosse realmente enganado.
Talvez os moradores reconhecessem a autoria.
Talvez a assombração funcionasse mais para a gurizada do que para suas vítimas.
Os vira-latas como cúmplices involuntários
Os cães da rua aparecem como personagens fundamentais.
Durante o dia, rabeavam e se esfregavam nos meninos.
À noite, com o rabo entre as pernas, uivavam junto com o som produzido pela tripa-de-mico.
Eles conheciam a gurizada.
Mas ainda assim reagiam ao efeito.
Essa imagem traz humor e vida para a cena.
Os vira-latas participam da assombração sem entender o plano.
São vítimas e cúmplices.
Contribuem com o clima e, ao mesmo tempo, denunciam a familiaridade daquele mundo em que crianças, cães e casas faziam parte do mesmo circuito de convivência.
A infância como pequena quadrilha
O autor usa a palavra “quadrilha” com ironia.
E ela funciona bem.
Porque havia planejamento.
Divisão de funções.
Escolha de alvos.
Execução noturna.
Fuga.
O exagero dá graça à lembrança, mas também revela algo importante: a infância coletiva era organizada por códigos próprios.
O primo L aparece como líder e especialista.
Os outros seguem a operação.
O grupo existe como pequena sociedade clandestina.
Em MIMMESMO, as crianças raramente são apresentadas como figuras passivas. Elas agem, inventam, erram, assustam, surrupiam e testam o mundo.
Humor, transgressão e memória
A crônica é atravessada por humor.
Mas não por humor ingênuo.
Há transgressão.
Há invasão de quintal.
Há prego fincado na casa alheia.
Há tentativa de assustar moradores.
O texto preserva a graça sem apagar o caráter de travessura.
Essa é uma característica forte da série: a memória não santifica a infância. Ela a mostra como território de imaginação, mas também de pequenas infrações.
E talvez seja exatamente isso que torna o relato vivo.
Por que ler esta crônica?
Porque ela revela uma infância inventiva, noturna e ligeiramente criminosa, capaz de transformar materiais simples em efeitos de assombração.
É uma crônica sobre medo, rua, humor, cães, casas antigas e sobre o prazer infantil de criar uma história antes mesmo de saber que isso também era uma forma de narrativa.
Ao lê-la, o leitor reencontra uma época em que a rua era extensão da casa e a imaginação bastava para transformar um bairro inteiro em cenário de mistério.
Continue acompanhando MIMMESMO
A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, memória, família, rua, humor, medo, culpa e formação humana.
Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como as travessuras da infância podem se transformar em literatura cheia de vida, ironia e afeto.