Quando não havia dinheiro, a imaginação fazia o investimento
A infância tem uma capacidade extraordinária de criar abundância onde os adultos enxergam escassez.
Um morro vazio pode virar parque.
Latas velhas podem virar brinquedos.
Frutas furtadas dos quintais podem abastecer uma praça de alimentação.
E crianças sem dinheiro podem se transformar em empresários, clientes e consumidores ao mesmo tempo.
Nesta vigésima terceira crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini recorda um parque de diversões improvisado pela gurizada do bairro. Não havia ingressos, bilheteria, patrocinadores ou lucro. Havia apenas imaginação, colaboração e a convicção infantil de que uma tarde podia se transformar em evento.
É uma crônica sobre criatividade, amizade, diversidade cultural e a capacidade de produzir alegria com quase nada.
Texto original da crônica
Crônica 23 – Parque de diversões
Em outro morro de fim de rua, montávamos um parque de diversões. Negócio parecido com quermesse de igreja — a única comparação que tínhamos pra fazer —, com pescaria e derruba-latas com bodoque e bolinhas de cinamomo. Cada brincadeira tinha a sua barraca, e uma era de comidas, que cada um dos guris trazia de casa: bolo com salame dos alemães — dos quais alguns idiotas achavam graça fazendo chorar os alemãezinhos; pé-de-moleque da mãe branca do Pelé — o único menino preto da rua; moranguinhas da nona; rosquinhas recheadas da polacada; frutas de verão — figos, uvas, vergamotas — que, em vez de pedir, preferíamos surrupiar dos quintais. Era uma feira sem departamento de vendas e, duros que vivíamos, nós mesmos, os empreendedores, pescávamos as latas de sardinha, disparávamos bodocadas nas latas vazias e, de prêmio, comíamos todas as comidas.
O empreendedorismo antes da palavra existir
A crônica descreve algo muito próximo de um empreendimento infantil.
As crianças organizavam barracas.
Criavam atrações.
Montavam espaços temáticos.
Distribuíam funções.
Levavam produtos.
Planejavam atividades.
Mas tudo isso acontecia sem qualquer intenção comercial.
O objetivo não era lucrar.
Era brincar.
Esse detalhe torna a memória especialmente interessante. O parque de diversões nasce da cooperação, não da venda. É uma economia baseada na participação.
Todos contribuem.
Todos brincam.
Todos consomem.
A quermesse como modelo de mundo
Carlos Homero escreve que a única comparação possível era a quermesse de igreja.
Essa observação ajuda a entender o universo cultural da época.
As referências disponíveis eram locais.
Não havia parques temáticos.
Não havia grandes centros de entretenimento.
A imaginação infantil utilizava aquilo que conhecia.
A quermesse servia como modelo organizacional para a brincadeira.
Barracas.
Jogos.
Comidas.
Prêmios.
Convívio.
A festa popular tornava-se inspiração para a invenção infantil.
Um retrato do bairro e de suas origens
A crônica também funciona como um pequeno retrato social da comunidade.
As comidas revelam as famílias.
Os alemães trazem bolo com salame.
A nona aparece novamente com suas moranguinhas.
A polacada contribui com rosquinhas recheadas.
As frutas vêm dos quintais do bairro.
O texto registra uma convivência entre descendências, culturas e costumes que ajudavam a formar a identidade local.
Ao mesmo tempo, há uma observação importante sobre o preconceito.
O autor menciona os meninos que faziam os alemãezinhos chorarem e recorda Pelé como o único menino preto da rua.
Esses detalhes surgem naturalmente na narrativa, mas ajudam a compor o cenário humano da época.
A praça de alimentação da infância
A barraca de comidas talvez seja o coração da crônica.
Não porque fosse sofisticada.
Mas porque reunia aquilo que cada família podia oferecer.
Os alimentos carregavam histórias, origens e afetos.
Não eram produtos comprados para o evento.
Eram pedaços das casas levados para o espaço coletivo.
O resultado era uma espécie de banquete improvisado da infância.
Um parque sem clientes
O melhor momento do texto está na revelação final.
Não existia departamento de vendas.
Não existiam consumidores externos.
As próprias crianças organizavam as brincadeiras e participavam delas.
Pescavam as latas.
Derrubavam as latas.
Ganham os prêmios.
Comiam as comidas.
É uma lógica perfeitamente infantil.
E também perfeitamente eficiente.
A produção e o consumo aconteciam no mesmo grupo.
O parque existia apenas para seus criadores.
A abundância dos que tinham pouco
Há uma frase que atravessa silenciosamente toda a crônica:
“Duros que vivíamos.”
A escassez econômica está presente.
Mas não domina a narrativa.
O que prevalece é a abundância da imaginação.
Com poucos recursos materiais, a gurizada produzia experiências, jogos, histórias e encontros.
MIMMESMO frequentemente retorna a essa característica da infância: a capacidade de construir riqueza simbólica em ambientes modestos.
Por que ler esta crônica?
Porque ela mostra como a infância transforma colaboração em diversão.
A partir de um simples morro no final da rua, Carlos Homero constrói uma lembrança cheia de humanidade, humor e observação social.
É uma crônica sobre amizade, criatividade, diversidade cultural, comida, brincadeiras e sobre uma época em que a diversão dependia muito mais da imaginação do que do dinheiro.
Continue acompanhando MIMMESMO
A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, rua, imaginação, humor e formação humana.
Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como os pequenos acontecimentos da infância podem revelar modos inteiros de viver e conviver.