A infância também inventava seus próprios campos de batalha
Nem toda guerra nasce da destruição.
Algumas nascem da imaginação.
Na infância, um potreiro podia virar território disputado, uma coxilha podia definir vantagem estratégica, um monte de pedras podia se transformar em fortaleza e uma planta arrancada do chão podia assumir a função de arma regulamentar.
Nesta vigésima primeira crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini revisita as guerras de infância travadas em campo aberto, entre trincheiras improvisadas, gritos de batalha, recuos táticos e ataques com rabos-de-burro.
É uma crônica sobre brincadeiras brutas, imaginação coletiva, risco, corpo e sobre uma infância em que a aventura era criada com aquilo que havia ao alcance das mãos.
Texto original da crônica
Crônica 21 – Guerras de infância
No potreiro contíguo à ladeira guerreávamos em coxilha aberta, com investidas sobre o inimigo e recuos táticos às respectivas trincheiras e fortalezas. O terreno era inclinado e uma das táticas era manobrar pra se posicionar nas partes mais altas. Os fortes de pedras juntadas ali mesmo, cobertos com galhos de bracatinga, não podiam cair nas mãos do inimigo, mesmo na iminência do colapso do exército defensor, que lutaria até o último homem pra defende-los. A única arma permitida era uma capoeira abundante no campo de batalha, meio metro de altura, folhas finas e compridas reunidas num feixe resistente. Mantinham no emaranhado de raízes uma pelota grande de terra quando, os combatentes, as arrancávamos do chão. Giradas acima da cabeça, em meio a berração da batalha, eram arremessadas de preferência coxilha abaixo, de encontro às hordas em cavalgada imaginária. As vantagens estratégicas relacionadas ao armamento, consistiam na seleção ocular das capoeiras mais crescidas, na força bruta natural dos braços de cada combatente e na frequência de rotações da pelota no instante do arremesso. Girando braço mais macega acima das cabeças, os pelejadores não se pareciam com maragatos ou chimangos em montaria, mas com helicópteros off-road. Era um negócio meio violento, mas o único risco mais sério, a dizimar guris de lado a lado, era tomar uma traulitada de rabo-de-burro no pé-da-orelha e rolar pela ribanceira. Nunca houve mortos, e os feridos sempre se recuperaram rapidamente para a batalha da próxima meia hora.
A geografia da brincadeira
A crônica transforma o espaço da infância em mapa militar.
O potreiro, a ladeira, a coxilha, as partes altas, as trincheiras e os fortes improvisados compõem uma geografia imaginária, mas plenamente funcional para a gurizada.
O terreno inclinado não era apenas cenário.
Era estratégia.
Quem ocupava a parte alta ganhava vantagem.
Quem defendia a fortaleza precisava resistir.
Quem recuava, recuava taticamente.
A infância tinha sua própria lógica de guerra, com regras, códigos e hierarquias criadas ali mesmo, entre pedras, galhos e gritos.
As armas do campo
A arma permitida era o rabo-de-burro, ou a capoeira arrancada do próprio campo de batalha.
A descrição é precisa.
Folhas finas e compridas.
Feixe resistente.
Raízes trazendo uma pelota grande de terra.
Depois, o giro acima da cabeça.
A força do braço.
A frequência das rotações.
O arremesso coxilha abaixo.
A cena mistura brutalidade e coreografia.
O que poderia parecer apenas bagunça infantil aparece como um sistema completo de combate, com táticas, armamentos, seleção de munição e avaliação de desempenho.
A infância como teatro épico
Uma das qualidades do texto está na forma como ele eleva a brincadeira sem perder o humor.
Os meninos não pareciam maragatos ou chimangos em montaria.
Pareciam helicópteros off-road.
A comparação cria uma imagem inesperada e cômica. Os combatentes girando as macegas acima da cabeça deixam de ser soldados tradicionais e viram máquinas improvisadas de guerra campestre.
MIMMESMO trabalha frequentemente com esse contraste: a cena é antiga, rural, de infância, mas o olhar adulto a relê com humor e linguagem contemporânea.
Violência, corpo e recuperação rápida
A crônica não romantiza completamente a brincadeira.
Era um negócio meio violento.
Havia traulitada no pé-da-orelha.
Havia rolar ribanceira abaixo.
Havia feridos.
Mas não havia mortos.
E os feridos se recuperavam rapidamente para a batalha da próxima meia hora.
Essa frase final condensa a lógica corporal da infância: dor e retomada quase imediata. O sofrimento existia, mas não encerrava a brincadeira. Ao contrário, fazia parte do ciclo.
Por que ler esta crônica?
Porque ela mostra a infância como espaço de invenção, corpo e intensidade.
A partir de um potreiro e algumas plantas arrancadas do chão, Carlos Homero constrói uma cena de guerra imaginária cheia de estratégia, humor e movimento.
É uma crônica sobre brincadeiras antigas, meninos em disputa, violência controlada e a força da imaginação coletiva.
Continue acompanhando MIMMESMO
A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, humor, corpo, rua e formação humana.
Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como os territórios simples da infância podem se transformar em literatura.