Pular para o conteúdo

Crônica 20 – MIMMESMO: Canoa de Butiá

A infância transformava qualquer ladeira em aventura

Antes dos esportes radicais terem nome, patrocínio e campeonato, existiam as ladeiras de bairro.

Antes dos carrinhos especializados, das pistas planejadas e dos equipamentos de segurança, existiam galhos de butiazeiro, grama, coragem e um grupo de guris dispostos a descer o mundo sentados sobre uma invenção improvisada.

Nesta vigésima crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini retorna aos dias de sol da infância, quando um morro gramado no fim da rua se tornava pista, brinquedo, desafio e território de alegria física.

É uma crônica sobre brincadeira, desigualdade discreta, invenção infantil e a capacidade de transformar precariedade em velocidade.

Texto original da crônica

Crônica 20 — Canoa de butiá

Em dias de sol um dos lugares preferidos da gurizada era um morro gramado comprido em declive acentuado no final de uma rua do bairro. Deslizávamos ladeira abaixo sentados sobre os galhos dos butiazeiros, forma e substância de canoas resistentes, embora uns guris grã-finos tivessem carrinhos de madeira em formato de trenós, com direção, freio e para-choques. Eram uns cem metros de desembestada precipitação. Não sei como dali não saiu ninguém pra o Red Bull Soapbox Race ou para as competições internacionais de Street Luge. Dureza era subir de volta a ladeira navegando a seco a canoa de butiazeiro.

A geografia secreta das brincadeiras

Toda infância cria seus mapas.

Não mapas oficiais, desenhados por adultos, mas mapas afetivos, feitos de terrenos baldios, ruas, árvores, muros, oficinas, morros, calhas e esconderijos.

Nesta crônica, o lugar central é um morro gramado, comprido, em declive acentuado, no final de uma rua do bairro.

Para quem passasse ali sem olhar de verdade, talvez fosse apenas uma ladeira.

Para a gurizada, era pista.

Era descida.

Era promessa.

Era risco.

Era a possibilidade de experimentar velocidade antes mesmo de conhecer qualquer palavra sofisticada para isso.

O brinquedo feito do que havia

A canoa de butiá é uma imagem precisa da infância inventiva.

Não era um brinquedo comprado.

Não vinha pronto.

Não tinha direção, freio ou para-choques.

Era feita daquilo que o mundo oferecia.

Galhos de butiazeiro.

Forma e substância de canoas resistentes.

O objeto improvisado carregava uma inteligência prática: servia, deslizava, aguentava, permitia a aventura.

Em MIMMESMO, a infância aparece frequentemente assim, mais ligada à invenção do que ao consumo.

Entre os guris da canoa e os guris grã-finos

A crônica introduz, com humor discreto, uma diferença social.

Alguns meninos tinham carrinhos de madeira em formato de trenós, com direção, freio e para-choques.

Eram os guris grã-finos.

A expressão situa uma desigualdade sem transformar o texto em discurso explicativo.

Basta a imagem.

De um lado, a canoa de butiazeiro.

Do outro, o carrinho com recursos técnicos.

Mas a aventura não dependia exclusivamente do equipamento.

Quem descia no galho também participava da grande corrida da infância.

A velocidade como alegria

“Eram uns cem metros de desembestada precipitação.”

A frase concentra o corpo inteiro da crônica.

A descida é física.

Bruta.

Descontrolada.

A palavra “desembestada” carrega o movimento, o riso, o perigo e a falta de cálculo.

O menino não está apenas brincando.

Está experimentando a velocidade como forma de liberdade.

Durante aqueles cem metros, o mundo parecia caber na ladeira.

E a infância, por alguns instantes, vencia a gravidade.

Humor e memória contemporânea

Ao mencionar o Red Bull Soapbox Race e as competições internacionais de Street Luge, o narrador adulto aproxima a infância antiga do vocabulário contemporâneo dos esportes radicais.

A comparação é engraçada porque desloca a cena.

O que era brincadeira improvisada de bairro passa a ser visto como possível treinamento informal para modalidades competitivas.

Esse recurso é típico de MIMMESMO: o autor olha o passado com afeto, mas também com ironia.

A memória não se torna solene demais.

Ela continua viva porque ainda sabe rir.

A parte difícil da aventura

A descida era prazer.

A subida era castigo.

Depois da “desembestada precipitação”, vinha a dureza de retornar morro acima carregando a canoa de butiazeiro.

A frase final é excelente porque devolve o peso físico da brincadeira.

Toda aventura tem seu preço.

A infância aprendia isso no corpo.

Descer era glória.

Subir era trabalho.

Mas a promessa de descer outra vez fazia valer o esforço.

Por que ler esta crônica?

Porque ela mostra a infância como território de invenção e coragem.

A partir de uma cena simples, crianças descendo uma ladeira sobre galhos de butiazeiro, a crônica fala sobre brincadeiras de rua, diferenças sociais, imaginação, risco e liberdade.

É um texto breve, visual e cheio de movimento.

Uma memória que desce rápido, mas permanece.

Continue acompanhando MIMMESMO

A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, humor, corpo, rua e formação humana.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como as brincadeiras simples de outros tempos continuam revelando muito sobre quem fomos e sobre aquilo que ainda carregamos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *