Às vezes, o trabalho também era uma forma de escapar de casa
Algumas lembranças da infância parecem doces à primeira vista.
Balas coloridas.
Papéis brilhantes.
Uma mesa cheia de crianças.
Histórias contadas à noite.
Mas, em MIMMESMO, quase nada permanece apenas na superfície. Por trás do caramelo, surge o trabalho infantil. Por trás da recompensa açucarada, aparece a precariedade. Por trás da cena quase doméstica, está o alívio de ficar algumas horas longe das brigas do pai e da mãe.
Nesta décima oitava crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini revisita um bairro inteiro envolvido na produção manual de balas, quando a automação ainda era futuro e o trabalho circulava pelas casas em latas de vinte quilos.
É uma crônica sobre infância, trabalho, humor, exploração e os pequenos refúgios encontrados dentro de realidades difíceis.
Texto original da crônica
Crônica 18 — O bairro que enrolava balas
Perto dessa mesma casa havia uma fábrica de balas — caramelos pra não confundi-las com cartuxos de pólvora e chumbo aos quais muita gente dá preferência. Automação era coisa do futuro e as balas eram enroladas uma a uma em papeizinhos coloridos por mãos humanas. Chegavam na casa da nona em latas de vinte quilos. A moça que morava lá pra cuidar dos velhinhos, ganhava um extra pra enrolar as balas nos papeizinhos. O bairro todo enrolava balas. E a moça, informal e terceirizada, coisa que ainda não tinham inventado, chamava a gurizada que andasse por ali pra ajudar no trabalho. O contrato rezava que a cada cinquenta balas enroladas pelo trabalho infantil, o trabalhador mirim quarteirizado e sem filiação sindical, podia comer uma. Trabalhávamos na casa da nona, sentados em torna da mesa, ouvindo as histórias da moça e comendo duas ou três balas por jornada. O trabalho era noturno e, apesar de não pagarem adicional, a recompensa era o alívio de algumas horas longe das brigas do pai e da mãe.
O doce e o amargo da memória
A crônica trabalha com um contraste forte.
O universo das balas, dos papéis coloridos e dos caramelos sugere doçura, infância e prazer. Mas o texto rapidamente desloca essa expectativa.
As balas eram trabalho.
Eram produção.
Eram tarefa repetida.
Eram economia informal antes mesmo que as palavras modernas tentassem explicar essas relações.
O humor de Carlos Homero aparece justamente nessa ironia: “trabalhador mirim quarteirizado e sem filiação sindical”. A frase ri da situação, mas não a torna inocente.
Ao contrário.
Mostra o absurdo.
O bairro como extensão da fábrica
A fábrica não ficava restrita ao prédio da produção.
Ela se espalhava pelas casas.
Chegava em latas de vinte quilos.
Passava pelas mãos da moça que cuidava dos velhinhos.
Alcançava a gurizada.
O bairro inteiro se tornava uma espécie de linha de montagem doméstica.
Esse detalhe dá à crônica uma dimensão social importante. A memória individual revela uma estrutura coletiva: trabalho informal, baixa remuneração, terceirização improvisada, participação infantil e normalização de práticas que hoje seriam vistas de outro modo.
MIMMESMO, nesse ponto, amplia seu alcance.
Não fala apenas de uma criança.
Fala de um tempo.
A infância diante do trabalho
A cada cinquenta balas enroladas, uma podia ser comida.
O pagamento era pequeno.
Mas, para uma criança, duas ou três balas por jornada podiam parecer uma recompensa possível.
A crônica não dramatiza em excesso.
Também não romantiza.
A força do texto está nessa ambiguidade.
Era trabalho.
Era exploração.
Mas era também encontro, história, mesa, noite e uma alternativa momentânea ao ambiente tenso da casa.
Essa mistura impede uma leitura simplista.
A infância, muitas vezes, encontrava prazer mesmo em lugares onde havia injustiça.
A mesa da nona como refúgio
A casa da nona retorna como espaço central.
Nas crônicas anteriores, ela já apareceu como lugar de comida, sombra, afeto, milharal, proteção e travessuras. Agora aparece também como lugar de trabalho noturno.
Mas, mesmo nessa função, conserva algo de refúgio.
As crianças se sentavam em torno da mesa.
Ouviam histórias.
Comiam algumas balas.
E, principalmente, ficavam algumas horas longe das brigas do pai e da mãe.
A frase final muda o peso de toda a crônica.
Aquilo que parecia memória curiosa sobre balas revela uma necessidade mais profunda: escapar do conflito doméstico.
O humor como forma de suportar o difícil
Carlos Homero utiliza humor para narrar situações que poderiam ser apenas amargas.
Caramelos confundidos com balas de pólvora.
Terceirização antes de ser inventada.
Trabalho infantil sem filiação sindical.
Adicional noturno inexistente.
Essas formulações produzem riso, mas também crítica.
O humor não suaviza completamente a dor.
Ele permite encará-la.
Em MIMMESMO, essa é uma estratégia recorrente: rir do passado sem deixar de reconhecer suas sombras.
Por que ler esta crônica?
Porque ela mostra como uma lembrança aparentemente simples pode revelar uma época, uma economia doméstica, uma infância e uma ferida familiar.
É uma crônica sobre balas, mas também sobre trabalho infantil.
Sobre bairro, mas também sobre fuga.
Sobre humor, mas também sobre dor.
E, sobretudo, sobre a capacidade da memória de encontrar, no mesmo gesto, o doce e o amargo.
Continue acompanhando MIMMESMO
A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, trabalho, humor, culpa, afeto e formação humana.
Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como pequenas cenas do cotidiano podem revelar estruturas inteiras da vida.