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Crônica 16 – MIMMESMO: Tilintar de Lata, Zombaria e Culpa

Algumas culpas só aparecem quando a memória amadurece

Há travessuras que, no momento em que acontecem, parecem apenas brincadeiras.

A adolescência tem essa habilidade perigosa: transformar tédio em plano, plano em bando, bando em pequenas profanações que só muito tempo depois revelam seu peso.

Nesta décima sexta crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini revisita um episódio ligado ao funeral do vovô. As coroas de flores de lata, guardadas por anos no porão, deixam de ser restos de luto e viram instrumento de zombaria noturna.

O que começa como uma aventura adolescente termina, no presente da escrita, como culpa tardia.

E talvez seja isso que torna a crônica tão forte: ela mostra como o tempo muda o sentido das nossas próprias ações.

Texto original da crônica

 

Crônica 16 – Tilintar de Lata, Zombaria e Culpa

As coroas do funeral do vovô eram de flores de lata. Não eram bonitas, mas tilintavam bastante, e duraram até serem esquecidas; tanto que ficaram guardadas por anos no porão. Netos adolescentes em noite de tédio, acompanhados por alguns outros meliantes, concebemos sair pela cidade carregando-as pra assustar com os tilintes, que supúnhamos amedrontadores, motoristas que parassem nos cruzamentos. Não dava certo. Depois de buzinaços e ameaças de chineladas na bunda, jogamos as coroas num terreno baldio, fomos pra as respectivas casas e, furtivamente, nos enfiamos em nossas camas quentes rezando pra que possíveis investigações a respeito fracassassem. Não me lembro de alguém ter dado pela falta das coroas, mas enquanto escrevo, lembro, isso sim, de não ter pedido desculpas ao vovô, que em sua beatice, a julgar imperdoável o crime, não as aceitaria, e quem sabe até nos tivesse castigado com uns cascudos, indo depois chorar pelos cantos.

O porão como arquivo da família

Toda casa antiga guarda objetos que parecem perder função, mas não perdem completamente o sentido.

As coroas de flores de lata, vindas do funeral do vovô, ficaram no porão por anos. Eram feias, barulhentas, esquecidas. Mas ainda carregavam uma origem: pertenciam ao rito da despedida, ao luto, à memória de um morto.

Para os adolescentes, porém, esse peso simbólico parecia distante demais.

O objeto foi esvaziado de solenidade e transformado em brinquedo de tédio.

Essa passagem revela uma verdade incômoda: nem sempre a juventude reconhece o valor das coisas que a memória adulta aprenderá a respeitar.

A adolescência e a invenção do absurdo

A cena é quase cinematográfica.

Um grupo de netos adolescentes, acompanhado por outros “meliantes”, sai pela cidade carregando coroas de lata para assustar motoristas nos cruzamentos.

O plano era ruim.

A execução, pior.

Os tilintes, que deveriam amedrontar, produzem apenas buzinaços e ameaças de chineladas.

Há humor evidente nessa lembrança.

Mas é um humor que carrega constrangimento.

A crônica preserva a comicidade do episódio sem deixar que ela apague a culpa que surge depois.

Quando a brincadeira toca o sagrado

As coroas não eram apenas objetos abandonados.

Eram restos de funeral.

E, por isso, carregavam uma ligação com o vovô.

O gesto adolescente, visto depois, ganha uma dimensão de profanação doméstica. Não religiosa no sentido formal, mas afetiva.

A brincadeira tocou uma memória de luto.

E talvez seja por isso que a culpa apareça no momento da escrita.

Não necessariamente porque alguém tenha descoberto.

Não porque houve punição.

Mas porque o narrador adulto compreende o que o adolescente não compreendia.

A culpa que chega tarde

Uma das frases centrais da crônica está no final:

“Enquanto escrevo, lembro, isso sim, de não ter pedido desculpas ao vovô.”

A escrita funciona aqui como tribunal íntimo.

Ao narrar, o autor não apenas recorda.

Ele julga.

Reorganiza o passado.

Percebe aquilo que antes passou sem elaboração.

Em MIMMESMO, a memória raramente é neutra. Ela volta carregada de perguntas, arrependimentos, humor, ternura e desconforto.

É assim que a lembrança deixa de ser apenas episódio e se transforma em literatura.

O vovô que castigaria e depois choraria

A crônica recupera também a figura do vovô apresentada anteriormente: o homem bom, silencioso, honesto, religioso, capaz de corrigir os filhos e depois chorar escondido.

Ao imaginar a reação dele, o narrador reafirma essa complexidade.

Talvez o vovô não perdoasse.

Talvez desse cascudos.

Talvez julgasse o crime imperdoável em sua beatice.

E talvez, depois, fosse chorar pelos cantos.

Essa imagem final conecta a travessura dos netos à memória moral do avô.

Não há apenas culpa pelo objeto jogado fora.

Há culpa diante da figura daquele homem.

Por que ler esta crônica?

Porque ela mostra uma das dimensões mais interessantes de MIMMESMO: a capacidade de reler o passado sem se absolver facilmente.

A crônica tem humor, mas não se refugia nele.

Fala de adolescência, tédio, morte, luto, zombaria, culpa e arrependimento.

É uma lembrança pequena, mas revela algo grande: muitas vezes só entendemos a gravidade dos nossos gestos quando já não há mais a quem pedir desculpas.

Continue acompanhando MIMMESMO

A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, adolescência, família, memória, culpa, afeto e formação humana.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como pequenos episódios familiares podem abrir grandes reflexões sobre o tempo, a consciência e aquilo que permanece dentro de nós.

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