Algumas casas guardam mais do que paredes antigas
Há casas que permanecem vivas dentro da memória.
Mesmo quando o tempo passa, mesmo quando os lugares mudam, certas imagens continuam intactas: o pátio, as árvores, a sombra fresca, a roda de crianças, a comida simples e a presença de alguém capaz de organizar o mundo ao redor do afeto.
Nesta nona crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini retorna à casa da nona, uma casa grande de esquina, cercada por milharal, árvores frutíferas e por uma imensa pereira sob a qual se conversava, tomava-se chimarrão e se distribuíam pequenas dádivas da infância.
Mais do que uma lembrança de família, esta é uma crônica sobre abundância afetiva, comida, infância e a força dos gestos simples.
Texto original da crônica
Crônica 9: Rosto entre as mãos
Ela morava numa casa grande de esquina, tão velha que foi tombada pelo patrimônio histórico, cercada por um pátio imenso com milharal e árvores frutíferas, em especial uma gigantesca pereira que cobria de sombra fresca o lugar em que ela se sentava com as visitas pra conversar e tomar chimarrão. Pra crianças de seis, sete anos, naquela casa tudo era um mundo de oportunidades pra doces velhacarias, inclusive a de espiar pelas frestas a pretinha fazendo xixi na casinha. Lá pelo meio da tarde a nona dava um tempo nas conversas, chamava a gata Tamonina e as crianças. Faziamos uma roda embaixo da pereira e ela distribuía moranguinhas do tamanho de uma caneca que cozinhava na água e enchia de açúcar. Comíamos aquela dádiva enquanto ela, com a Tamonina no colo, nos observava evaporando contentamento. Havia igualmente os dias em que ela distribuía fatias de pães grandes como uma melancia, que sovava com as mãos entortadas pela vida, e que cobria com manteiga caseira conservada sob água e cremosa como nunca se viu. Que pão com manteiga era aquele?
A casa como território da infância
Para uma criança, uma casa nunca é apenas uma casa.
Ela pode ser castelo, labirinto, esconderijo, território proibido e lugar de descoberta.
A casa da nona aparece na crônica como um mundo inteiro. O pátio imenso, o milharal, as árvores frutíferas e a pereira gigantesca formam uma paisagem afetiva que ultrapassa a descrição física.
O espaço é lembrado não por sua importância arquitetônica, embora tenha sido tombado pelo patrimônio histórico, mas pela experiência vivida nele.
Para a memória, o verdadeiro patrimônio não é a construção.
É aquilo que aconteceu dentro e ao redor dela.
A infância entre travessuras e descobertas
Carlos Homero não higieniza a infância.
Ele a apresenta com suas curiosidades, suas pequenas transgressões e suas “doces velhacarias”.
Essa escolha dá força ao texto.
A criança da crônica não aparece como figura idealizada, inocente demais ou artificialmente pura. Aparece como criança real: curiosa, inventiva, imprudente, interessada nos segredos do mundo e nos limites que os adultos tentavam impor.
MIMMESMO trabalha frequentemente com esse tipo de memória.
Não se trata de enfeitar o passado.
Trata-se de narrá-lo com humanidade.
A nona, a pereira e a liturgia da tarde
No centro da crônica está a nona.
Ela interrompe a conversa.
Chama a gata Tamonina.
Chama as crianças.
Organiza a roda sob a pereira.
Distribui as moranguinhas cozidas na água e cobertas de açúcar.
A cena tem a simplicidade dos rituais domésticos e, ao mesmo tempo, a força das grandes imagens literárias.
A nona não precisa de discursos para expressar amor.
Ela serve.
Observa.
Acolhe.
E permite que as crianças “evaporem contentamento”.
A comida como memória afetiva
Poucas coisas guardam tanta memória quanto a comida.
O sabor de uma moranguinha com açúcar.
O pão grande como uma melancia.
A manteiga caseira conservada sob água.
Esses elementos formam uma memória sensorial poderosa.
O leitor quase vê a cena, quase sente o cheiro, quase prova aquele pão.
Mas o mais importante não é apenas o alimento.
É o gesto.
A comida aparece como linguagem do cuidado.
Como forma de afeto.
Como aquilo que a nona oferecia às crianças sem precisar explicar o que sentia por elas.
As mãos entortadas pela vida
Uma das imagens mais fortes da crônica é a das mãos da nona.
Mãos entortadas pela vida.
Mãos que sovavam pão.
Mãos que distribuíam alimento.
Mãos marcadas pelo tempo, mas ainda capazes de produzir abundância.
O título, “Rosto entre as mãos”, encontra nessa imagem sua força simbólica.
As mãos representam trabalho, dor, cuidado e permanência.
São mãos que alimentam e, ao alimentar, guardam.
Como se a infância inteira pudesse caber entre elas.
Por que ler esta crônica?
Porque ela fala de algo que muitas pessoas carregam: a lembrança de uma casa, de uma avó, de uma comida e de uma tarde que parecia não terminar.
É uma crônica sobre memória afetiva, família, infância, comida caseira e sobre a capacidade de certos gestos simples permanecerem vivos por décadas.
Ao ler este texto, o leitor não acompanha apenas a memória do autor.
Ele é levado a reencontrar suas próprias casas antigas, seus próprios quintais, suas próprias avós e os sabores que o tempo nunca conseguiu repetir.
Continue acompanhando MIMMESMO
A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, afeto e formação humana.
Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como os pequenos gestos do cotidiano podem se transformar em literatura.