Pular para o conteúdo

Crônica 8 – MIMMESMO: Das Chacoalhadas Boas e Ruins

Algumas das melhores lembranças da infância nos sacodem até hoje

A vida é feita de chacoalhadas.

Algumas chegam sem aviso e deixam marcas difíceis de esquecer. Outras, ao contrário, tornam-se lembranças tão felizes que continuam aquecendo a memória décadas depois.

Nesta oitava crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini revisita duas experiências muito diferentes, mas unidas por um elemento comum: o movimento.

Uma delas fazia o corpo vibrar em meio às aventuras proibidas do moinho onde seu pai trabalhava.

A outra embalava algo mais profundo: a alma, o coração e o sentimento de pertencimento que só algumas pessoas conseguem despertar.

É uma crônica sobre risco, afeto e sobre as formas inesperadas pelas quais a felicidade se instala na memória.

Texto original da crônica

Crônica 8: Das chacoalhadas boas e ruins

Proibido entrar.

Das chacoalhadas boas e ruins a que fui submetido quando menino lembro especialmente de duas, da categoria felicidades. No moinho onde o pai trabalhava, havia uma espécie de peneira gigante que rebolava como bambolê em cintura de guria. É claro que a gurizada estava proibida de pisar lá: vários andares com descascadores, classificadores, moedores: acidentes em potencial. Mas a peneira rebolante era irresistível e sempre se dava um jeito de enganar o moinheiro polaco pra, agarrados em uns ferros que ela tinha nas laterais, chacoalhar deliciosamente até sermos descobertos e enxotados.

A segunda, foi de nível superior, não apenas prazer por chacoalhadas do corpo, mas aquecimento da alma e do coração no colo daquela velhinha de mãos retorcidas pela artrite, que não perdia a oportunidade de pegar netos e netas pra embalar no colo, fossem pequenos ou já marmanjas e marmanjos.

A noninha foi a campeã dos meus afetos na infância.

O irresistível fascínio das coisas proibidas

Toda infância guarda algum território proibido.

Um lugar que os adultos insistiam em manter distante e que, justamente por isso, se tornava irresistível.

No moinho onde trabalhava seu pai, esse território era ocupado por máquinas, engrenagens, classificadores e moedores. Um ambiente que os adultos enxergavam como risco e as crianças enxergavam como aventura.

No centro desse universo existia a peneira gigante.

Uma estrutura que balançava e girava de maneira hipnótica.

A placa invisível dizia: “não entre”.

A infância respondia: “vamos ver o que acontece”.

A felicidade física da infância

Há alegrias que passam primeiro pelo corpo.

Correr.

Pular.

Escalar.

Girar.

Ser chacoalhado.

A experiência da peneira não era intelectual. Não era simbólica. Era pura sensação.

Segurar os ferros laterais e sentir o movimento era uma forma simples e intensa de felicidade.

Até que surgisse o moinheiro polaco.

Até que viesse o inevitável enxotamento.

Mas, nesse momento, pouco importava.

A aventura já havia sido vivida.

A infância costuma medir sucesso de forma diferente dos adultos.

O colo que aquecia mais que o corpo

A segunda chacoalhada ocupa outro lugar na memória.

Ela não acontece em máquinas.

Não envolve risco.

Não exige fuga.

Acontece no colo da noninha.

E talvez seja justamente por isso que o narrador a considere superior.

Ali não se tratava apenas de movimento físico.

Tratava-se de acolhimento.

De segurança.

De amor.

Aquela velhinha de mãos deformadas pela artrite parecia possuir uma capacidade inesgotável de distribuir afeto.

Não importava a idade dos netos.

Pequenos.

Grandes.

Marmanjos.

Todos eram candidatos ao colo.

As mãos marcadas pela vida

A imagem da noninha é construída por um detalhe poderoso: suas mãos.

Mãos retorcidas pela artrite.

Mãos marcadas pelo trabalho, pelo tempo e pela vida.

Mas ainda capazes de embalar.

Ainda capazes de acolher.

Ainda capazes de transformar um simples gesto em memória permanente.

Muitas vezes os maiores afetos da infância não vêm de grandes acontecimentos.

Vêm de presenças constantes.

De pessoas que fazem do cuidado uma prática cotidiana.

A campeã dos afetos

A frase final da crônica concentra sua emoção principal:

“A noninha foi a campeã dos meus afetos na infância.”

Ao longo de MIMMESMO, avós aparecem repetidamente como figuras fundamentais na formação emocional do narrador.

Mas a noninha ocupa um espaço especial.

Ela não é lembrada por grandes discursos.

Não é celebrada por feitos extraordinários.

É lembrada por algo mais raro.

Pela capacidade de fazer alguém se sentir amado.

O afeto como herança

Talvez essa seja uma das grandes reflexões da crônica.

As pessoas mais importantes da nossa história nem sempre são aquelas que realizaram feitos grandiosos.

Frequentemente são aquelas que nos acolheram.

Que nos ouviram.

Que nos embalaram.

Que criaram ao redor de nós uma sensação de proteção que continua existindo muito depois de sua partida.

A infância pode esquecer datas.

Pode esquecer nomes.

Mas dificilmente esquece um colo onde se sentiu segura.

Por que ler esta crônica?

Porque ela fala de duas experiências universais: a aventura e o afeto.

A primeira nos lembra da coragem, da curiosidade e da energia da infância.

A segunda nos lembra da importância dos vínculos que sustentam a vida emocional.

É uma crônica sobre felicidade, memória, avós e sobre aquelas pessoas que continuam nos embalando mesmo quando já não estão presentes.

Continue acompanhando MIMMESMO

A série MIMMESMO segue reunindo lembranças, afetos e experiências que ajudaram a formar a trajetória de Carlos Homero Giacomini.

Continue acompanhando as próximas crônicas e descubra como as memórias mais simples podem revelar os sentimentos mais profundos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *