O amor nem sempre tem tempo para pensar
Existem acontecimentos da infância que sobrevivem não apenas pelo que aconteceu, mas pelas perguntas que continuam provocando.
Uma queda.
Um susto.
Um gesto impulsivo.
Um instante tão rápido que não permite cálculos, mas suficientemente intenso para atravessar uma vida inteira.
Nesta sétima crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini revisita um episódio ocorrido no moinho onde seu pai trabalhava. O que poderia ser apenas uma lembrança de infância transforma-se em uma reflexão sobre coragem, instinto, heroísmo e os limites delicados que separam o amor da imprudência.
Mais do que uma história sobre uma queda, esta é uma história sobre um pai que escolheu cair junto.
Texto original da crônica
Crônica 7: Queda, coragem e churrios emocionais
Não sei se antes ou depois da queimadura do meu irmão na casca de arroz, estávamos ele, a mãe, o pai e eu, não lembro se havia mais alguém, sobre um terraço de alguns metros de altura no moinho onde o pai trabalhava, observando um canteiro de obras a uns três metros lá embaixo. O terraço era cercado apenas por um cano grosso na altura da minha cabeça de criança de uns três anos.
Meu irmão, que gostava de amarrar rojões nos rabos de gatos e soltá-los pra ver o desespero deles, me empurrou sabe-se lá porque e, por debaixo do cano de proteção, fui jogado às obras lá embaixo.
Meu pai, impulsiva e insensatamente, se jogou atrás de mim; pretendia me alcançar antes que eu chegasse ao chão e me proteger salvando minha vida.
O fato é que eu sai daquela com uns poucos arranhões, e meu pai, caindo de costas, teve a vida salva por um cavalete sobre o qual bateu o cotovelo esquerdo violentamente antes de chegar ao chão, o que lhe valeu fraturas ósseas complexas que o incomodaram até o fim da vida.
Sorte que não morreu.
É claro que o meu herói se agigantava e ganhou a crítica admiração dos que ficaram sabendo do acontecido.
Mas, eu me perguntava: será que nem por uma fração de segundo ele não pensou na mulher e nos cinco outros filhos que precisava continuar criando?
Meu pai era de grande e impulsiva coragem — talvez ainda conte outros feitos.
Um segundo capaz de mudar tudo
A memória costuma preservar grandes acontecimentos.
Mas também preserva frações de segundo.
Nesta crônica, tudo acontece rapidamente.
Uma criança.
Um terraço.
Um empurrão.
Uma queda.
E um pai que decide agir antes mesmo que o pensamento consiga organizar as consequências.
O episódio ilustra algo muito comum nas lembranças de infância: a percepção tardia do risco.
O menino de então talvez não compreendesse completamente a gravidade da situação.
O adulto que recorda compreende.
E justamente por isso a cena ganha novas camadas de significado.
O irmão, o caos e a imprevisibilidade da infância
A descrição do irmão não é gratuita.
O menino que amarrava rojões em rabos de gatos já surge como personagem associado ao impulso, à travessura e à convivência despreocupada com o perigo.
A infância frequentemente acontece nesse território de fronteiras mal definidas.
Brincadeiras e acidentes convivem lado a lado.
O que hoje parece absurdo, ontem fazia parte do cotidiano.
O empurrão não surge como maldade planejada.
Surge como parte daquele universo infantil em que a consciência do risco ainda não foi plenamente construída.
O heroísmo visto de perto
Naturalmente, a história transforma o pai em herói.
Quem escuta o relato tende a admirar o homem que se lançou atrás do filho sem hesitar.
E há razões para isso.
A coragem é evidente.
O gesto é extraordinário.
O amor é inquestionável.
Mas a força desta crônica está justamente em não parar aí.
O narrador adulto introduz uma pergunta desconfortável.
E extremamente humana.
Coragem ou imprudência?
“Será que nem por uma fração de segundo ele não pensou na mulher e nos cinco outros filhos que precisava continuar criando?”
A pergunta não diminui o heroísmo.
Ao contrário.
Ela o torna mais complexo.
A coragem absoluta costuma ser celebrada.
Mas a vida real raramente é absoluta.
Existe uma tensão permanente entre proteger alguém e preservar a própria capacidade de continuar protegendo.
Ao introduzir essa dúvida, a crônica abandona o terreno das histórias edificantes e entra no território mais interessante da condição humana: o das contradições.
Os churrios emocionais da memória
O título da crônica sugere algo curioso.
Os “churrios emocionais” funcionam como pequenos curtos-circuitos afetivos.
Sentimentos que não se organizam perfeitamente.
Admiração misturada com perplexidade.
Gratidão misturada com questionamento.
Orgulho acompanhado de dúvida.
É exatamente isso que acontece aqui.
O pai é admirado.
Mas também é interrogado.
É celebrado.
Mas também observado sob uma luz mais crítica.
A memória amadurecida raramente trabalha com heróis perfeitos.
Ela prefere pessoas reais.
O pai como personagem recorrente de MIMMESMO
Ao longo das primeiras crônicas da série, a figura paterna surge repetidamente.
Ora como ouvinte silencioso dos sonhos do filho.
Ora como motorista das estradas de barro.
Agora como homem impulsivo capaz de colocar a própria vida em risco.
Pouco a pouco, forma-se um retrato complexo.
Não de um pai idealizado.
Mas de um homem.
Corajoso.
Imperfeito.
Humano.
E talvez justamente por isso tão memorável.
Por que ler esta crônica?
Porque ela fala de um tema universal: os gestos extremos que o amor pode provocar.
Ao mesmo tempo, convida o leitor a refletir sobre coragem, responsabilidade, instinto e sobre a forma como revisamos nossas memórias à medida que envelhecemos.
É uma crônica sobre família, risco, gratidão e sobre as perguntas que continuam sem resposta mesmo depois de toda uma vida.
Continue acompanhando MIMMESMO
A série MIMMESMO segue explorando lembranças da infância, da família e dos afetos que moldaram a trajetória de Carlos Homero Giacomini.
Continue acompanhando as próximas crônicas e descubra como pequenas histórias pessoais podem revelar questões profundamente humanas.