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Crônica 6 – MIMMESMO: Festinha, Piodermite e Radiola

A adolescência também se faz de vergonha, desejo e improviso

Há uma idade em que tudo parece depender do rosto.

Do cabelo.

Da roupa.

Do cheiro.

Da coragem de chegar perto.

Na adolescência, o corpo muitas vezes se torna o principal campo de batalha. Justo quando o desejo de ser visto cresce, cresce também o medo de ser observado demais.

Nesta sexta crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini revisita as festinhas de quinze anos, os preparativos cuidadosos, a presença amorosa da mãe nas roupas feitas em casa e a insegurança de quem queria dançar de rosto colado com a mocinha do coração, mas carregava no rosto as marcas difíceis de uma piodermite.

A cena é íntima, constrangedora e profundamente humana.

Texto original da crônica

Crônica 6: Festinha, piodermite e radiola

Na época das festinhas de quinze anos, rito pequeno burguês que tive a sorte de desfrutar muitas vezes, me arrumava para as ocasiões com dedicação e criatividade. Ainda mais se estava com piodermite e esperava dançar com a mocinha do coração com o rosto colado. A doença de pele causava umas feridas no meu rosto, redondas, do tamanho de um botão pequeno, crostosas e um pouco úmidas, não muito fáceis de disfarçar. É claro que um bom tratamento com penicilina teria posto o mal a cabo em poucos dias, mas as minhas orientações não passavam da recomendação de beber chá de sabugueiro. A dedicação ao nosso preparo fashion pras festinhas ficava por conta da mãe, que não abria mão de que os filhos fizessem boa figura e se desdobrava costurando vestidos, calças e camisas no verão, e tricotando maravilhosos blusões no inverno. No caso da festinha com piodermite, criatividade e empenho me levavam a recortar discos de bandeides, um tantinho maiores que as feridas, que colava no rosto sobre elas como parte da tática. Fui à festinha um pouco sem confiança, “será mesmo que não cheira?” E, em vez de cumprir o sonho de dançar de rosto colado com aquela mocinha, bebia bastante, assumia o posto de DJ e passava a festa rodando Chico Buarque e Creedence na radiola.

O corpo como obstáculo ao desejo

A crônica parte de uma experiência muito comum na juventude: o desencontro entre aquilo que se deseja viver e aquilo que o corpo parece permitir.

O menino queria dançar.

Queria se aproximar.

Queria viver o rito afetivo e social das festinhas.

Mas a piodermite impunha uma barreira concreta e simbólica. As feridas no rosto não eram apenas uma questão de pele. Tornavam-se motivo de insegurança, dúvida e medo de rejeição.

O detalhe do bandeide recortado revela bem esse esforço adolescente de controlar o incontrolável. Uma pequena engenharia da vergonha. Uma tentativa de esconder aquilo que parecia grande demais para ser ignorado.

A mãe e a elegância possível

No meio da insegurança, aparece uma presença fundamental: a mãe.

Ela costurava, tricotava, preparava roupas e se dedicava para que os filhos fizessem boa figura. Esse cuidado prático atravessa a crônica como uma forma silenciosa de afeto.

Não se trata apenas de moda.

Trata-se de cuidado.

De proteção.

De uma tentativa de colocar os filhos no mundo com alguma dignidade, mesmo quando a vida, a pele ou a timidez insistiam em atrapalhar.

Em MIMMESMO, os afetos familiares frequentemente aparecem assim: não como grandes declarações, mas como gestos concretos.

Uma roupa feita.

Um blusão tricotado.

Uma preocupação com a aparência do filho antes da festa.

A festa que não aconteceu como sonho

O sonho era dançar de rosto colado com a mocinha do coração.

Mas a cena imaginada não se cumpre.

No lugar da dança, aparece a fuga.

No lugar da aproximação, a radiola.

No lugar do romance, Chico Buarque e Creedence.

Essa substituição é uma das forças da crônica. O narrador não transforma a experiência em tragédia. Também não a trata como simples piada. Ele recupera a cena com humor, ternura e melancolia.

Às vezes, a vida não nos dá o protagonismo que desejávamos.

Então encontramos outro lugar possível.

A radiola como refúgio

Assumir o posto de DJ era, naquele contexto, uma saída engenhosa.

Quem cuida da música participa da festa sem precisar se expor completamente.

Está presente.

Mas protegido.

A radiola torna-se um esconderijo e, ao mesmo tempo, um palco.

O menino que não conseguiu dançar de rosto colado ainda encontrou uma maneira de ocupar a noite, de conduzir o ambiente e de transformar a própria insegurança em função social.

Essa é uma das delicadezas do texto: mostrar como muitas das nossas adaptações nascem de pequenas derrotas.

Por que ler esta crônica?

Porque ela fala da adolescência sem idealização.

Fala da vergonha, do desejo, da aparência, da insegurança e das estratégias que inventamos para continuar participando da vida mesmo quando não nos sentimos prontos.

É uma crônica sobre juventude, corpo, mãe, música e sobre os caminhos improvisados que encontramos quando os sonhos não acontecem exatamente como imaginamos.

Continue acompanhando MIMMESMO

Esta é mais uma crônica da série MIMMESMO, em que Carlos Homero Giacomini revisita memórias da infância e da juventude para revelar os afetos, constrangimentos e descobertas que ajudam a formar uma vida.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como episódios aparentemente pequenos podem guardar uma profunda humanidade.

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