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Crônica 5 – MIMMESMO: O Primeiro Molar e as Guerras de Pau

A infância também deixa marcas no corpo

Algumas lembranças da infância permanecem como imagens.

Outras ficam como cheiros, vozes, lugares ou pequenas cenas familiares.

Mas há lembranças que se instalam no próprio corpo.

Um dente perdido.

Uma dor antiga.

Uma articulação que estala.

Uma vergonha discreta diante de estranhos.

Nesta quinta crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini parte de um episódio aparentemente simples: uma dor de dente na infância. Mas, como acontece em suas melhores memórias, o detalhe cotidiano se abre para algo maior.

A dor do primeiro molar se mistura às brincadeiras de rua, às batalhas com espadas de pau, à rapadura afanada e às consequências que atravessam a vida adulta.

Texto original da crônica

 

Texto original da crônica

Crônica 5: O primeiro molar e as guerras de pau

Depois de passar semanas com dor infernal, e enfiar no dente algodão com álcool, cera dr. lustosa e outras porcarias, me levaram ao dentista. “Muito ruim isso daqui. Quem manda comer rapadura e não escovar os dentes? Vou ter que arrancar. Tá vendo o buraco que já se formou?” Não, eu não via, mas sentia, conhecia o buraco, a fundo, das inúmeras vezes que o preenchia com a ponta da língua ou enfiava cera nele pra me reabilitar pras guerras de espadas de pau e batalhas de rabo-de-burro junto com meus amigos que, com ou sem dor de dentes, jamais se rendiam. Grandes guerreiros! Saí do tiradentes sem o primeiro molar inferior à direita. Adulto, com os dentes tortos pela falta daquele molar, usei aparelhos durante alguns desconfortáveis anos, não pra ficar lindo como as mulheres Padaung, mas pra não detonar a articulação do meu queixo que doía e estalava ao lado de estranhos no café da manhã, me fazendo ficar tristemente envergonhado. A canjiqueira voltou parcialmente ao lugar e eu fui dispensado pelo dentista das bráquetes, fios metálicos e extensores. Mas, algum tempo depois, meus pobres dentes tinham, teimosamente, voltado para seus antigos lugares. Disso tudo eu lembro com certeza. Inclusive que, a rapadura, eu afanava da loja do moinho onde meu pai era diretor.

A dor que não impedia a brincadeira

A crônica começa com uma dor concreta, quase física para quem lê.

O dente aberto, o algodão com álcool, a cera improvisada, as tentativas domésticas de conter o sofrimento. Tudo compõe uma infância marcada por soluções precárias, mas também por uma energia vital que parecia mais forte do que qualquer dor.

O menino sofria.

Mas não parava.

Havia guerras a disputar.

Havia amigos esperando.

Havia espadas de pau, batalhas de rabo-de-burro e a convicção infantil de que nenhum verdadeiro guerreiro se renderia por causa de um dente estragado.

É nesse contraste que a crônica ganha força: a dor existe, mas a infância insiste em continuar brincando.

O corpo como arquivo da memória

O primeiro molar arrancado não desaparece da história.

Ele continua presente justamente pela ausência.

Anos depois, a falta daquele dente reorganiza a boca, entorta os dentes, afeta a articulação do queixo e produz uma vergonha adulta diante de situações banais, como um café da manhã ao lado de estranhos.

A memória, aqui, não é apenas lembrança mental.

É consequência física.

O passado continua trabalhando no corpo.

Aquilo que parecia apenas um episódio infantil passa a revelar como pequenas perdas podem seguir produzindo efeitos por muito tempo.

A vergonha adulta e as marcas da infância

Um dos pontos mais humanos da crônica está na vergonha.

Não uma vergonha grandiosa.

Mas aquela vergonha pequena, silenciosa, quase doméstica, que surge quando o corpo denuncia algo diante dos outros.

O estalo no queixo.

A dor.

O desconforto.

A sensação de estar sendo observado.

Carlos Homero transforma um detalhe íntimo em uma experiência reconhecível. Todos carregamos alguma marca, algum ruído, alguma imperfeição que nos faz lembrar de que o corpo tem sua própria história.

Humor, culpa e memória

A crônica termina com uma confissão que altera o tom da lembrança: a rapadura era afanada da loja do moinho onde o pai era diretor.

Esse detalhe é decisivo.

Ele devolve humor ao texto.

A dor, o dente arrancado, os aparelhos e os anos de desconforto se conectam a uma pequena transgressão infantil.

Não há vitimização.

Há ironia.

Há memória.

Há a capacidade de olhar para a própria história sem retirar dela suas contradições.

Por que ler esta crônica?

Porque ela mostra como a literatura pode nascer de um detalhe aparentemente comum.

Um dente perdido, uma rapadura roubada, uma brincadeira de criança e uma vergonha adulta se transformam em reflexão sobre memória, corpo, infância e consequência.

MIMMESMO trabalha justamente nesse território: o das pequenas histórias que, vistas de perto, revelam muito sobre a formação de uma pessoa.

Continue acompanhando MIMMESMO

Esta é mais uma crônica da série MIMMESMO, em que Carlos Homero Giacomini revisita episódios da infância, da família e da vida comum para revelar aquilo que permanece no corpo, na memória e na linguagem.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como lembranças simples podem carregar histórias inteiras.

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