Pular para o conteúdo

Crônica 12 – MIMMESMO: Fumaça de Chocolate e Gritaria Italiana

Algumas lembranças familiares sobrevivem pelo riso

Nem toda memória importante precisa nascer da dor, da saudade ou da melancolia.

Algumas permanecem porque fazem rir.

Mas não é um riso qualquer. É o riso da intimidade, aquele que nasce quando conhecemos profundamente alguém: seus hábitos, suas teimosias, seus exageros, seus palavrões, seus pequenos vícios e sua maneira única de existir no mundo.

Nesta décima segunda crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini volta ao nono italiano, agora já bem velhinho, proibido de fumar, mas ainda disposto a aproveitar qualquer oportunidade que se parecesse minimamente com um cigarro.

O resultado é uma cena doméstica, cômica e afetiva: um cigarro de chocolate, um fogão a lenha, café com grappa e uma sequência de imprecações italianas diante de uma fumaça que nunca viria.

Texto original da crônica

Crônica 12 – Fumaça de Chocolate e Gritaria Italiana

Bem velhinho, proibiram-no de fumar, o que ele só deixava de fazer porque não tinha acesso a cigarros. Mas se uma oportunidade aparecia ele não desperdiçava. Foi assim que uma prima deu a ele uma imitação de cigarro feita de chocolate. O nono tomou um café com grappa e se sentou na frente do fogão a lenha pra acender e fumar a preciosidade. Abriu a portinhola e levava a ponta do cigarro às brasas, e a soprava pra que se avivasse, e aspirava, e não acontecia nada além de um leve derretimento da ponta do chocolate. A cada tentativa frustrada, soltava várias de suas imprecações italianas preferidas: porco dio, porca madona, dio cane. Netos e netas, dos pequenos e dos grandes, espiávamos aglomerados na abertura da porta da cozinha abafando gargalhadas.

O nono e a resistência aos limites da velhice

A crônica começa com uma proibição.

O nono já estava velho e não podia mais fumar. Mas a proibição, como tantas vezes acontece, não eliminava o desejo. Apenas dependia da falta de acesso aos cigarros.

Há humor nessa observação, mas há também uma percepção aguda sobre a velhice.

Mesmo quando o corpo envelhece, certas vontades permanecem vivas. O hábito, o prazer, a teimosia e a identidade não desaparecem apenas porque alguém decidiu que deveriam desaparecer.

O nono não fumava porque não podia.

Mas, se pudesse, fumaria.

E foi justamente nessa brecha que a cena nasceu.

O cigarro de chocolate como armadilha cômica

A prima entrega ao nono uma imitação de cigarro feita de chocolate.

O gesto poderia ser apenas brincadeira.

Mas, na lógica afetiva da crônica, torna-se quase um experimento familiar.

O nono leva o objeto a sério.

Prepara-se.

Toma café com grappa.

Senta-se diante do fogão a lenha.

Abre a portinhola.

Aproxima a ponta do cigarro das brasas.

Sopra.

Aspira.

Insiste.

E nada acontece, além do inevitável derretimento do chocolate.

A cena funciona porque o leitor enxerga tudo com nitidez. O velho, o fogão, o chocolate derretendo, os netos escondidos e a expectativa absurda de que aquele cigarro impossível pudesse finalmente acender.

A língua da irritação e da origem

A cada tentativa frustrada, surgem as imprecações italianas.

“Porco dio.”

“Porca madona.”

“Dio cane.”

As expressões não aparecem apenas como palavrões. Elas são parte da personagem. Funcionam como marca de origem, de temperamento, de pertencimento.

Na crônica anterior, o nono já havia sido apresentado por sua fala misturada, pelo talian, pelo dialeto veneziano atravessado pelo português. Aqui, a língua retorna no momento da irritação.

Isso é significativo.

Muitas vezes, quando a emoção escapa, ela volta ao idioma mais profundo da pessoa. À língua da infância, da origem, da família, da raiva e do espanto.

O nono xinga em italiano porque é ali que sua emoção parece morar.

O riso abafado dos netos

Enquanto o nono tenta fumar chocolate, os netos e netas se aglomeram na abertura da porta da cozinha.

Pequenos e grandes.

Todos testemunhas.

Todos cúmplices.

Todos tentando conter as gargalhadas.

Essa imagem é uma das mais fortes da crônica. A família inteira assiste à cena sem interromper. Ninguém explica. Ninguém estraga o momento. Ninguém diz que aquilo não vai funcionar.

O riso é abafado porque existe respeito.

E também porque existe prazer em ver a cena continuar.

Esse é o humor familiar em sua forma mais pura: rir de alguém sem deixar de amá-lo. Ou melhor, rir justamente porque se ama e se reconhece aquela pessoa em sua inteireza.

A memória como teatro doméstico

MIMMESMO muitas vezes transforma cenas pequenas em pequenos palcos.

Aqui, a cozinha é o teatro.

O fogão a lenha é o centro da ação.

O nono é o protagonista.

Os netos são a plateia.

O cigarro de chocolate é o objeto dramático.

A graça da cena está no contraste entre a solenidade do nono e a impossibilidade do ato. Ele não parece brincar. Ele tenta mesmo. E, quanto mais tenta, mais a cena se torna memorável.

A crônica mostra como as famílias guardam seus personagens por meio dessas pequenas histórias repetidas.

Não são biografias oficiais.

São cenas.

E, muitas vezes, uma cena diz mais sobre alguém do que muitas explicações.

Por que ler esta crônica?

Porque ela revela o lado cômico e afetivo da memória familiar.

A crônica fala de envelhecimento, vício, teimosia, imigração italiana, linguagem e convivência entre gerações. Mas faz isso sem solenidade excessiva.

O texto preserva o humor da cena e, ao mesmo tempo, deixa entrever a ternura de uma família observando seu velho nono ser exatamente quem era.

É uma crônica curta, visual e cheia de personalidade.

Continue acompanhando MIMMESMO

A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, ancestralidade, humor e os personagens que ajudaram a formar sua história.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como as cenas mais simples de uma casa podem permanecer acesas por toda uma vida.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *