Há pessoas que carregam a origem como uma sentença e uma bandeira
Nem todos os afetos familiares são feitos de ternura explícita.
Alguns chegam ásperos.
Secos.
Pouco conversados.
Há figuras que não se aproximam pelo carinho, mas pela força de presença. Pessoas que permanecem na memória não porque foram doces, mas porque eram inteiras, duras, inconfundíveis.
Nesta décima primeira crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini apresenta o nono: italiano casca grossa, trabalhador incansável, pouco dado a carinhos e conversas, mas profundamente marcado por sua origem.
É uma crônica sobre ancestralidade, imigração, trabalho, linguagem e sobre como certas frases familiares atravessam gerações.
Texto original da crônica
Crônica 11 – Porco Dio, sou de Fonzaso!
Já o nono era um inquebrantável italiano casca grossa pouco chegado a carinhos e conversas. Trabalhou como cavalo até os cinquenta anos e depois se aposentou por conta de propriedades que vendia. Seu passatempo era se sentar numa cadeira coberta com um pelego na plataforma da senzala, digo, transportadora de cargas, que funcionava no térreo de sua casa grande, e ficar observando a carga-descarga dos caminhões no lombo dos chapas. Os chapas se divertiam bulindo com ele e seu dialeto veneziano, que, misturado ao português, virou uma coisa que no sul do Brasil é chamada de talian. “Nono, de onde você é?”, perguntavam-lhe várias vezes ao dia. E ele respondia: “so da provincia de Belun, distreto de Fonzaso, dove le galine se chiama brasiliani, porco dio.” Ou alguma coisa parecida com isso.
O nono como figura de origem
Depois das crônicas dedicadas à nona e à vovó, esta crônica desloca o olhar para outra figura familiar: o nono.
Mas aqui o afeto não aparece suavizado.
O personagem é apresentado como um homem duro, pouco afeito à conversa e aos carinhos. Um homem moldado pelo trabalho e por uma forma de masculinidade antiga, em que a dureza parecia ser quase uma exigência de sobrevivência.
Essa escolha narrativa é importante.
MIMMESMO não constrói uma família idealizada.
Ao contrário, apresenta suas figuras com contradições, rugosidades, humor e humanidade.
O nono é lembrado não por sua doçura, mas por sua presença marcante.
Trabalho, dureza e observação
A imagem do nono sentado numa cadeira coberta com pelego, observando a carga e descarga dos caminhões, é altamente visual.
Ele já não trabalha como antes, mas continua vinculado ao mundo do trabalho.
Observa.
Fiscaliza.
Participa à distância.
A cena revela uma geração para a qual o trabalho não era apenas atividade econômica, mas identidade. Mesmo aposentado, o nono parece encontrar sentido no movimento dos caminhões, no esforço dos chapas, na rotina pesada da transportadora.
A palavra usada pelo autor, com ironia e incômodo, ao comparar o espaço à senzala, introduz uma crítica seca ao trabalho braçal observado do alto, sem retirar da cena seu humor familiar.
O talian como memória viva
Um dos pontos mais fortes da crônica é a linguagem.
O nono fala uma mistura de dialeto veneziano com português, conhecida no Sul do Brasil como talian.
Esse detalhe abre a memória familiar para uma memória coletiva maior: a da imigração italiana e de seus descendentes no Brasil.
A língua, aqui, não é apenas comunicação.
É herança.
É sobrevivência.
É a prova sonora de que a origem continua viva mesmo depois da mudança de país, de cultura e de geração.
A pergunta repetida e a resposta ritual
Os chapas perguntavam várias vezes ao dia:
“Nono, de onde você é?”
A pergunta provavelmente já não buscava informação.
Era provocação.
Era brincadeira.
Era ritual.
E a resposta do nono vinha com força, identidade e blasfêmia italiana:
“Sou da província de Belun, distrito de Fonzaso…”
A frase, mesmo lembrada de modo aproximado, funciona como assinatura do personagem.
Ele era dali.
Mesmo vivendo aqui.
A origem não era uma informação secundária.
Era parte essencial de sua autoimagem.
Humor, ancestralidade e pertencimento
A crônica carrega humor, mas não apenas humor.
Há algo de profundamente afetivo na forma como o narrador preserva a fala do nono, inclusive sua mistura de idiomas e suas imprecações.
Essas expressões familiares costumam sobreviver mais do que muitas explicações.
Os descendentes talvez não saibam todos os detalhes da viagem, da chegada, das perdas ou das adaptações do imigrante.
Mas lembram da frase.
Do sotaque.
Do palavrão.
Da forma de responder quando provocado.
É assim que muitas famílias guardam sua ancestralidade: não em documentos, mas em cenas repetidas.
Por que ler esta crônica?
Porque ela mostra como uma figura familiar pode condensar uma história maior.
O nono de Carlos Homero é, ao mesmo tempo, personagem íntimo e representante de uma experiência coletiva: a imigração italiana, o trabalho duro, a preservação da língua e a construção de identidade em outro país.
É uma crônica curta, irônica, áspera e viva.
Daquelas em que uma frase basta para revelar um mundo.
Continue acompanhando MIMMESMO
A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, linguagem, ancestralidade e formação humana.
Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como as figuras familiares, mesmo as mais duras, também ajudam a escrever a história de quem somos.