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Crônica 10 – MIMMESMO: Pizza ou Outra Coisa?

A infância também é feita de esconderijos, sustos e defesas improváveis

Toda infância tem seus territórios secretos.

Um canto do quintal.

Um quarto pouco frequentado.

Um porão.

Um milharal.

Na décima crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini retorna ao milharal da casa da nona, já apresentado como espaço de aventura, curiosidade e pequenas transgressões infantis.

Mas agora o milharal ganha outra função: torna-se palco das descobertas, dos segredos e dos constrangimentos que fazem parte do crescimento.

É uma crônica sobre infância, vergonha, linguagem, humor familiar e sobre a proteção inesperada de uma avó capaz de transformar uma acusação perigosa em pizza.

Texto original da crônica

Crônica 10 – Pizza ou outra coisa?

O milharal era um versátil esconderijo e foi palco de terríveis malfeitos. Nele nos ocultávamos pra escandalosas experiências de troca-troca entre os guris ou pra, mais elegante e sutilmente, brincar de médico com as gurias. E na hora do pega-pra-capar, pois nem todos os nossos crimes eram perfeitos, podíamos contar com a defesa da nona. Como quando escrevemos pissa num papel, errando a ortografia da conhecida masculina piça, à qual, de fato, pretendíamos nos referir. A mãe achou o papel e começou o interrogatório: o que vocês quiseram escrever aqui? E enquanto mudos não tínhamos ideia do que inventar como resposta, a nona, analfabeta, em verossímil contextualização italiana fechou a questão: pizza, foi pizza que eles quiseram escrever.

O milharal como cenário das descobertas infantis

Em MIMMESMO, os lugares não são apenas cenários.

Eles funcionam como depósitos de memória.

O milharal, neste caso, é mais do que uma plantação. É esconderijo, laboratório, território livre e espaço de experiências que pertencem ao universo infantil.

A crônica trata de descobertas do corpo, da curiosidade e da linguagem sem idealizar a infância. O narrador não transforma as crianças em figuras angelicais. Ao contrário, assume suas travessuras, seus equívocos e sua mistura de inocência com malícia.

Esse é um dos pontos fortes da série: a infância aparece com verdade.

Não como cartão-postal.

Mas como vida.

A curiosidade antes da culpa

As brincadeiras citadas na crônica pertencem a um momento em que a criança tenta compreender o mundo com os recursos que possui.

O corpo, os nomes, os segredos e os limites adultos aparecem como mistérios a serem explorados.

O texto não procura escandalizar.

Também não procura justificar.

Ele registra.

E, ao registrar, permite ao leitor reconhecer uma infância menos higienizada e mais próxima da experiência real: cheia de perguntas, impulsos, descobertas, medos e embaraços.

Quando a palavra vira prova

A tensão da crônica nasce de um papel encontrado pela mãe.

Uma palavra mal escrita.

Um erro ortográfico.

Uma intenção que os adultos poderiam compreender rápido demais.

A pergunta da mãe inaugura o interrogatório:

“O que vocês quiseram escrever aqui?”

Nesse momento, as crianças entram no território clássico da culpa.

Não há resposta pronta.

Não há mentira bem organizada.

Não há saída.

O silêncio revela mais do que qualquer explicação.

A nona como advogada da infância

É então que a nona entra em cena.

Analfabeta, mas absolutamente precisa na leitura da situação, ela oferece uma resposta salvadora.

Pizza.

Foi pizza que eles quiseram escrever.

A explicação funciona porque é verossímil no contexto italiano da família. E funciona ainda melhor porque encerra a investigação com uma mistura rara de humor, inteligência e afeto.

A nona não apenas protege os netos.

Ela reorganiza a cena.

Transforma o perigo em mal-entendido.

A culpa em comida.

O escândalo em linguagem.

Humor, afeto e proteção familiar

A crônica é breve, mas muito eficiente.

Em poucas linhas, constrói cenário, conflito, ameaça e solução.

O humor nasce exatamente desse deslocamento: aquilo que poderia virar castigo familiar termina convertido em pizza.

Mas por baixo da comicidade existe algo mais profundo.

A presença da nona como figura de defesa.

Ela aparece como alguém capaz de proteger as crianças não porque elas estejam necessariamente certas, mas porque são crianças.

A ternura da cena está nesse gesto.

Na disposição de criar uma saída quando os pequenos ainda não tinham linguagem suficiente para se defender.

A força literária do mal-entendido

Grandes crônicas muitas vezes nascem de acontecimentos mínimos.

Uma palavra escrita errado.

Um papel encontrado.

Uma pergunta da mãe.

Uma resposta da avó.

A partir disso, Carlos Homero constrói uma cena que fala sobre infância, sexualidade infantil, moral familiar, imigração italiana, analfabetismo, humor e afeto.

A crônica não explica demais.

Confia na cena.

E é justamente essa economia narrativa que dá força ao texto.

Por que ler esta crônica?

Porque ela revela uma das marcas mais interessantes de MIMMESMO: a capacidade de transformar memórias íntimas em pequenas cenas de reconhecimento humano.

O leitor encontra humor, constrangimento, afeto familiar e uma infância narrada sem excesso de pureza artificial.

É uma crônica curta, mas carregada de humanidade.

Continue acompanhando MIMMESMO

A série MIMMESMO segue reunindo crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, memória, linguagem, vergonha, humor e afeto.

Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como pequenos episódios familiares podem revelar grandes aspectos da vida humana.

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