Algumas viagens continuam acontecendo muito depois da chegada
Existem viagens que permanecem vivas não pelo destino, mas pelos detalhes do caminho.
O veículo.
A estrada.
As paisagens.
As pessoas.
Os pequenos rituais que se repetem até se transformarem em parte da nossa identidade.
Nesta quarta crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini revisita uma lembrança construída entre estradas de barro, araucárias, refeições compartilhadas e a presença de um pai cuja figura atravessa a memória como um dos personagens centrais de sua formação.
Mais do que uma viagem entre cidades, esta é uma travessia pelas paisagens afetivas da infância.
Texto original da crônica
Crônica 4 – O Jipe, a Mesa e a Melancolia
Felicidade de me sentir triste era, por exemplo, a melancolia de ver meu pai no esforço de fazer o motor do jipe pegar com a manivela tocada a suor, nas partidas das viagens entre as duas pequenas cidades de nossos destinos, evitando pelo trajeto os poucos quilômetros de asfalto que o assustavam — exímio motorista das estradas de barro dos seus tempos.
E o jipe avançava pelo caminho pedregoso, aventura na paisagem dobrada de puro mato, em destaque as araucárias.
Demorados quilômetros à frente, chegávamos à casa do colono que servia refeições e nos aconchegávamos à mesa redonda com centro giratório, momento alto da viagem, superado apenas pelo abraço à nona no destino final.
No centro da mesa giravam pratos de polenta, galinha, radicci, fatias de queijo de colônia, sem que, apreensivas, nós crianças precisássemos pedi-los ao pai ou à mãe: ao pai porque nunca se pedia nada sem medo, à mãe, tensa e ansiosa, porque sempre derrubava as coisas.
Um mundo de flocos invisíveis de melancolia, organizado e em paz na beira daquela estrada, porque lá nada de ruim acontecia, se bem me lembro.
As estradas da infância e a construção da memória
Há lembranças que não se fixam em acontecimentos extraordinários.
Fixam-se em repetições.
Nas viagens que aconteciam todos os anos.
Nos caminhos conhecidos.
Nas paisagens que pareciam eternas.
Nesta crônica, o percurso é tão importante quanto o destino.
O pai surge como figura central da jornada. Um homem habituado às estradas de barro, mais confortável nos caminhos antigos do que nos poucos quilômetros de asfalto que o progresso começava a impor.
A imagem do motor sendo acionado pela manivela, entre suor e insistência, transforma-se numa poderosa representação de um tempo em que viajar exigia mais paciência, mais esforço e mais presença.
O pai, o jipe e o mundo que desapareceu
Muitas vezes a memória preserva não apenas pessoas, mas formas inteiras de viver.
O jipe da crônica não é apenas um veículo.
É um símbolo de uma época.
Uma ponte entre gerações.
Um elemento que transporta não apenas passageiros, mas afetos.
A figura paterna aparece novamente em MIMMESMO marcada pela discrição, pela autoridade silenciosa e pela força cotidiana.
É um pai que não se explica.
Não se analisa.
Não se descreve longamente.
Apenas existe.
E justamente por isso permanece tão vivo.
A mesa giratória e a abundância da infância
Entre todos os momentos da viagem, existe um que ganha destaque especial: a parada para a refeição.
A mesa redonda com centro giratório surge quase como um personagem da narrativa.
Para as crianças, aquele movimento representava muito mais do que praticidade.
Representava liberdade.
Os pratos vinham até elas.
A comida estava ao alcance.
Não era preciso interromper os adultos.
Não era preciso pedir.
Não era preciso enfrentar medos.
A polenta.
A galinha.
O radicci.
O queijo de colônia.
Tudo circulava como parte de um ritual de acolhimento.
Os lugares onde nada de ruim acontecia
Uma das frases mais marcantes da crônica talvez seja esta:
“Lá nada de ruim acontecia, se bem me lembro.”
A memória frequentemente constrói territórios de segurança.
Lugares onde a infância parece ter encontrado repouso.
Não importa se eram perfeitos.
Não importa se realmente estavam livres de problemas.
O que importa é que sobreviveram dentro de nós como refúgios.
Aquela casa à beira da estrada torna-se um desses lugares.
Um espaço onde a vida parecia organizada.
Onde o tempo desacelerava.
Onde as tensões do mundo adulto permaneciam do lado de fora.
A melancolia das coisas boas
MIMMESMO retorna frequentemente a uma ideia delicada: a felicidade de sentir tristeza.
A melancolia presente nesta crônica não nasce da dor.
Nasce da beleza.
Da consciência de que certos momentos foram tão importantes que não podem ser revisitados sem uma ponta de saudade.
A infância passou.
As viagens terminaram.
O jipe silenciou.
A mesa talvez já não exista.
Mas a emoção permanece.
E é justamente essa permanência que transforma a lembrança em literatura.
Por que ler esta crônica?
Porque ela fala de algo que todos carregamos: os caminhos que deixaram de existir, mas continuam vivos dentro da memória.
Ao acompanhar essa viagem entre estradas de barro, refeições simples e afetos familiares, o leitor encontra não apenas a história do autor, mas fragmentos das próprias lembranças.
É uma crônica sobre pertencimento, família, saudade e sobre os lugares que continuam habitando quem fomos.
Continue acompanhando MIMMESMO
A cada nova publicação, MIMMESMO revela uma memória, uma pessoa ou um lugar que ajudou a construir a trajetória de Carlos Homero Giacomini.
Continue acompanhando a série e descubra como as experiências mais simples podem se transformar em profundas reflexões sobre a vida, o tempo e os afetos.