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Crônica 3 – MIMMESMO: Sobre a Descoberta da Neve e o Nascimento de uma Tristeza Bonita.

Nem toda tristeza nasce da dor

Algumas tristezas chegam acompanhadas de encanto.

Não surgem de uma perda, de uma despedida ou de um sofrimento evidente. Aparecem silenciosamente, quase como uma descoberta. Um sentimento novo, difícil de nomear, que se instala ao mesmo tempo em que algo belo se revela diante dos nossos olhos.

Nesta terceira crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini retorna a uma cena simples da infância: um menino sentado junto à janela observando a neve pela primeira vez.

Mas o que permanece na memória não é a paisagem branca nem a raridade do fenômeno. O que permanece é o nascimento de uma emoção. Uma melancolia delicada, ainda sem nome, que passaria a acompanhar sua forma de olhar o mundo.

Texto original da crônica

Crônica 3 – Sobre a descoberta da neve e o nascimento de uma tristeza bonita

Estava aboletado numa cadeira junto da janela da sala de casa. Pela primeira vez, encantado, via a neve. Mas não eram os flocos brancos coreográficos que gravavam minhas lembranças. O que sentia, e ao fechar os olhos posso sentir outra vez, eram os toques sutis das plumas que desciam sobre meu braço estendido janela afora, eu a me perguntar: o que elas foram antes de ser neve?

Vagamente, queria flanar com elas, como floco leve a qualquer confim. Mas impedido de crer e cogitar, lá estava eu, aboletado na cadeira junto da janela de casa, vendo a neve.

Entranhado pelo broto da melancolia, minha nobre melancolia: a falta de não saber o que falta, a estranha felicidade de me sentir triste.

O instante em que a infância encontra a contemplação

Muitas lembranças da infância estão ligadas ao movimento.

Brincadeiras.

Corridas.

Travessuras.

Descobertas.

Esta, porém, nasce da contemplação.

Um menino observa a neve cair e, diante daquele espetáculo silencioso, experimenta algo que vai muito além da curiosidade. Surge uma pergunta. Surge um desejo. Surge uma sensação difícil de explicar.

O fascínio não está apenas no que os olhos enxergam.

Está no que a imaginação constrói.

A neve deixa de ser apenas neve e se transforma em mistério.

O que existia antes do floco?

Uma das forças desta crônica está na pergunta que a atravessa.

“O que elas foram antes de ser neve?”

A questão parece simples, mas carrega uma dimensão profundamente poética.

A criança não observa apenas a realidade.

Ela busca as histórias escondidas dentro dela.

Os flocos tornam-se viajantes.

As plumas parecem vir de algum lugar desconhecido.

O mundo deixa de ser apenas aquilo que é para se tornar também aquilo que poderia ter sido.

É nesse território que a literatura costuma nascer.

Na curiosidade diante do invisível.

Na tentativa de imaginar o que existe por trás das aparências.

A melancolia como forma de sensibilidade

A palavra melancolia costuma ser associada à tristeza.

Mas nem toda melancolia é sofrimento.

Existe uma melancolia serena, contemplativa, quase bela.

Uma sensação de ausência que não possui objeto definido.

Uma saudade de algo que nunca aconteceu.

Um desejo de alcançar lugares que não sabemos nomear.

A crônica apresenta exatamente esse sentimento.

O narrador não sofre.

Ele contempla.

E, ao contemplar, percebe dentro de si uma estranha mistura de encanto e falta.

A felicidade de sentir tristeza

Poucas definições são tão delicadas quanto esta:

“A estranha felicidade de me sentir triste.”

Ela traduz uma experiência que muitos reconhecem, mas raramente conseguem explicar.

Há momentos em que a tristeza não é uma inimiga.

Ela se torna uma forma de conexão com a profundidade da existência.

Uma consciência silenciosa da passagem do tempo.

Uma percepção de que há sempre algo maior do que conseguimos compreender.

Talvez seja essa emoção que acompanha os grandes leitores, os artistas e todos aqueles que, em algum momento, se permitem contemplar o mundo para além de sua superfície.

Memória, infância e imaginação

Ao longo de MIMMESMO, a memória não aparece apenas como registro de acontecimentos.

Ela surge como espaço de interpretação.

O menino que observa a neve não está apenas lembrando.

Está reconstruindo.

Está atribuindo sentidos.

Está encontrando, décadas depois, palavras para uma emoção que talvez não soubesse nomear quando criança.

Essa é uma das características mais marcantes da série: transformar experiências aparentemente simples em reflexões sobre identidade, sensibilidade e condição humana.

Por que ler esta crônica?

Porque ela nos lembra que algumas das experiências mais importantes da vida acontecem silenciosamente.

Sem grandes acontecimentos.

Sem testemunhas.

Sem explicações.

Apenas um menino, uma janela, a neve e a descoberta de um sentimento que o acompanharia por toda a vida.

É uma crônica sobre contemplação, imaginação e sobre a beleza discreta das emoções que não precisam ser resolvidas.

Continue acompanhando MIMMESMO

A cada nova crônica, MIMMESMO revela uma memória, um afeto ou uma experiência que ajudou a construir a trajetória de Carlos Homero Giacomini.

Continue acompanhando a série e descubra como pequenas cenas da infância podem se transformar em profundas reflexões sobre a vida.

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