Algumas das conversas mais importantes da vida acontecem no silêncio
Nem todos os pais ensinam através de discursos.
Alguns ensinam através da presença.
Há homens que deixam grandes frases, conselhos memoráveis ou orientações que atravessam gerações. Outros oferecem algo mais discreto e, talvez por isso mesmo, mais difícil de perceber enquanto acontece: o dom de estar ali.
Nesta segunda crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini revisita uma lembrança construída entre jantares, sonhos infantis e a escuta silenciosa de um pai que parecia dizer muito mesmo quando não dizia quase nada.
É uma memória sobre companhia, imaginação e sobre as conversas que continuam existindo muito depois que a mesa foi desocupada.
Texto original da crônica
Crônica 2 – Sobre a presença silenciosa do pai e os sonhos compartilhados à mesa
Anos depois, eu já era um grande conversador e meu companheiro ouvinte era meu pai. Depois do jantar, sentado ao seu lado à mesa, noventa graus à esquerda, e não frente à frente como é comum com um pai, eu tecia planos de futuro, rabiscava projetos de casas fantásticas, explodia meu menino sonhador.
Não lembro se alguma coisa ele dizia, calado que sempre estava, e nunca cogitei atribuir sua presença dedicada aos miligramas de álcool que aqueciam seu sangue. Era meu pai e estava ali por inteiro, recendia a fumo e maçãs vermelhas enroladas em papel de seda azul-marinho.
Será que foram muitas aquelas tertúlias? Provavelmente não, até porque, o menino, passei rapidamente. Mas o velho de hoje continua a querer conversar com seu pai. Ouvir o nada que ele teria a me dizer, encher de tudo o que me desse na telha seus ouvidos infinitos.
A presença que fala sem palavras
Esta crônica toca em uma experiência profundamente humana: a lembrança daqueles que nos ouviram quando ainda estávamos aprendendo a sonhar.
O pai retratado por Carlos Homero não aparece como um personagem de grandes discursos ou intervenções. Sua importância nasce justamente daquilo que muitas vezes passa despercebido: sua disponibilidade para ouvir.
Enquanto o menino imaginava futuros, desenhava casas impossíveis e organizava seus projetos infantis, o pai ocupava um lugar silencioso, mas essencial. Sua escuta funcionava como uma espécie de território seguro onde a imaginação podia existir sem constrangimentos.
A memória preserva menos as palavras e mais a sensação de ter sido acolhido.
Os afetos discretos da infância
Nem sempre os maiores afetos são demonstrados de maneira explícita.
Existem vínculos construídos através da rotina, dos gestos simples e da repetição dos pequenos encontros cotidianos.
O cheiro de fumo.
As maçãs embrulhadas em papel de seda.
A cadeira ao lado da mesa.
Os detalhes que poderiam parecer insignificantes tornam-se, com o passar do tempo, os elementos que sustentam a lembrança.
A escrita de MIMMESMO frequentemente percorre esse caminho: não procura os grandes acontecimentos, mas aquilo que permanece quando os acontecimentos já passaram.
A memória, o tempo e as conversas inacabadas
Uma das forças desta crônica está na percepção de que algumas conversas nunca terminam.
O menino cresceu.
O tempo avançou.
Mas o desejo de sentar-se novamente ao lado do pai continua vivo.
Há algo de profundamente comovente na vontade de continuar contando histórias a quem já não está presente para ouvi-las. Como se o afeto criasse uma espécie de permanência que desafia a lógica do tempo.
Muitas vezes, as pessoas que amamos continuam habitando nossos diálogos interiores muito depois de terem partido.
A escuta como forma de amor
Em uma época marcada pela necessidade constante de falar, opinar e responder, esta crônica nos lembra da importância de algo mais raro: ouvir.
Talvez uma das maiores demonstrações de amor seja justamente oferecer atenção genuína ao sonho de alguém.
O pai desta memória não precisava explicar o mundo.
Bastava permanecer ali.
E, às vezes, permanecer é tudo.
Por que ler esta crônica?
Porque ela nos lembra que a memória não guarda apenas fatos. Guarda presenças.
Ao acompanhar esta lembrança de infância, o leitor é convidado a revisitar suas próprias mesas, seus próprios silêncios e as pessoas que um dia escutaram seus sonhos sem pedir nada em troca.
É uma crônica sobre família, afeto e sobre os vínculos que continuam existindo dentro de nós.
Continue acompanhando MIMMESMO
Esta é mais uma das memórias que compõem o universo de MIMMESMO, série de crônicas em que Carlos Homero Giacomini revisita pessoas, lugares e experiências que ajudaram a construir sua trajetória.
Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como as pequenas cenas da vida podem revelar grandes histórias humanas.