Certas lembranças da infância permanecem gravadas no corpo
A infância também é feita de acidentes aparentemente banais que, no instante em que acontecem, adquirem proporções imensas.
Nesta trigésima segunda crônica de MIMMESMO, Carlos Homero Giacomini reconstrói uma tarde de sábado que começa com alegria, frutas no quintal e a expectativa de passear com o pai, mas termina em dor, medo e desespero.
O episódio é narrado com franqueza, humor e desconforto. Um macacão criado para facilitar a rotina da criança transforma-se no centro de um acidente íntimo, enquanto o pai e o tio tentam resolver a situação.
Por trás da cena dolorosa, há também uma revelação afetiva: mesmo diante dos adultos presentes, o menino deseja que a mãe assuma o controle. É nela que deposita sua maior confiança.
Texto original da crônica
Crônica 32 – O Zíper, o Medo e a Confiança na Mãe
A impressão confusa que eu tenho, é que as minhas partes mais íntimas eram objeto de atenções especiais na minha infância. No quintal grande da casa de um tio, havia muitas árvores de frutas. Uma especial era a dos caquis coração-de-boi, enormes, na rabeira dos quais o pai pingava álcool para ficarem doces e cremosos e comer de colher. O quintal do tio era pura alegria. Uma tarde, certamente sábado, meu melhor dia da semana, pois o pai podia me levar para passear, fomos visitar o tio e seu quintal. Eu vestia um macacão de criança com zíper que ia da raiz do pescoço até abaixo dos genitais. Obra do reconhecido espírito prático da mãe, o macacão dispensava o uso de cuecas e era fácil de fechar e abrir pra fazer xixi sem ter que ser despido. E eu ia fazer xixi atrás de uma árvore, e puxava o zíper para baixo, que emperrava a meio caminho, que eu puxava com toda força, que deslizava até embaixo e, no trajeto, prendia meu pobre pistolim. Na verdade, entrava na carne dele, bem onde fica o freio do prepúcio. Eu gritava e corria até o pai. Lembro do meu tio cortando o zíper com um alicate e meu pai tirando aquela chapinha de metal do subcutâneo do pinto enquanto eu berrava que deixasse pra a mãe resolver em casa.
Uma tarde que começa com alegria
O início da crônica é luminoso.
Há um quintal grande.
Há árvores frutíferas.
Há caquis coração-de-boi.
Há o pai preparando as frutas para que ficassem doces e cremosas.
Há também a alegria particular do sábado, o melhor dia da semana para o menino, porque significava a possibilidade de passear com o pai.
Esses elementos constroem uma atmosfera de segurança e encantamento.
O quintal do tio aparece como território de liberdade.
Mas, em poucos instantes, esse cenário de prazer se transforma em lugar de dor.
O caqui, o quintal e a memória sensorial
A presença dos caquis não é apenas decorativa.
Ela produz textura, sabor e cor.
O narrador recorda o fruto enorme, o álcool colocado pelo pai e a consistência cremosa que permitia comê-lo de colher.
Essa precisão sensorial é uma característica importante de MIMMESMO.
A memória não surge apenas como sequência de acontecimentos.
Ela vem acompanhada de objetos, cheiros, sabores, roupas e gestos cotidianos.
É essa materialidade que torna a lembrança tão próxima.
O espírito prático da mãe
O macacão havia sido escolhido por sua funcionalidade.
Dispensava cuecas.
Facilitava a troca.
Permitiria que a criança urinasse sem precisar retirar toda a roupa.
O narrador atribui essa solução ao “reconhecido espírito prático da mãe”, expressão que aparece em outras crônicas da série.
A mãe é apresentada como alguém que buscava soluções concretas para os problemas do cotidiano.
Mas a praticidade, neste caso, produz involuntariamente uma situação perigosa.
A crônica mostra como objetos comuns podem assumir consequências inesperadas dentro da experiência infantil.
A construção narrativa do acidente
O trecho em que o zíper emperra é construído por uma sequência acelerada de ações:
O menino puxa.
O zíper trava.
Ele força.
O mecanismo desliza.
A pele fica presa.
A repetição do “que” reproduz a velocidade do acontecimento.
Tudo ocorre antes que a criança possa perceber o risco.
O efeito é quase cinematográfico.
O leitor acompanha o movimento até o instante em que a brincadeira cotidiana se transforma em acidente.
O corpo infantil como lugar de vulnerabilidade
A crônica começa com uma impressão inquietante: a de que as partes íntimas do narrador recebiam atenções especiais durante a infância.
Essa frase não precisa ser compreendida de maneira literal ou isolada.
Dentro da série, ela pode ser lida como introdução a um conjunto de lembranças corporais marcadas por cuidados, acidentes, constrangimentos e intervenções dos adultos.
A criança conhece o próprio corpo também por meio da dor.
Descobre seus limites.
Percebe sua vulnerabilidade.
E entende que, diante de determinadas situações, depende inteiramente das decisões dos mais velhos.
O alicate e a urgência dos adultos
O tio corta o zíper com um alicate.
O pai tenta retirar a peça de metal presa à pele.
A cena é direta e difícil de esquecer.
Não há tempo para delicadeza.
Os adultos precisam agir rapidamente diante do sofrimento da criança.
O objeto doméstico transforma-se em instrumento de emergência.
Essa solução improvisada reforça o caráter concreto da memória familiar: os problemas eram enfrentados com os recursos disponíveis naquele momento.
“Deixa para a mãe resolver”
A frase final revela mais do que o medo da dor.
O menino pede que o pai pare.
Quer que a mãe resolva a situação em casa.
Nesse pedido existe uma confiança profunda.
A mãe representa o cuidado conhecido.
É a pessoa a quem a criança associa proteção, competência e alívio.
Mesmo que o macacão tenha nascido de sua praticidade, é para ela que o menino deseja voltar.
A frase revela uma lógica afetiva infantil: quando algo dói de verdade, existe alguém específico que parece capaz de reorganizar o mundo.
Entre humor e desconforto
A crônica trata de um acidente doloroso, mas também contém marcas de humor.
O “pobre pistolim”, o macacão funcional, o alicate e a tentativa desesperada de transferir o problema para a mãe produzem uma comicidade involuntária.
Esse humor não elimina a dor.
Ele nasce da distância temporal.
O adulto que narra consegue olhar para a criança que foi e transformar o sofrimento em literatura.
Esse movimento é recorrente em MIMMESMO: experiências assustadoras deixam de ser apenas traumáticas quando podem ser reorganizadas pela linguagem.
A memória inscrita no corpo
Algumas lembranças permanecem porque foram acompanhadas de sensações físicas intensas.
Dor.
Frio.
Calor.
Medo.
Vergonha.
O corpo registra acontecimentos que a memória racional talvez não conseguisse conservar sozinha.
Nesta crônica, o quintal, o sábado e os caquis sobrevivem ao lado do zíper, do alicate e dos gritos.
Prazer e sofrimento ocupam a mesma lembrança.
É justamente essa convivência de elementos opostos que dá força ao texto.
Por que ler esta crônica?
Porque ela transforma um acidente íntimo da infância em reflexão sobre vulnerabilidade, cuidado familiar, confiança e memória corporal.
A narrativa começa em um quintal cheio de frutas e termina no apelo desesperado de uma criança pela mãe.
É uma crônica franca, incômoda e também bem-humorada, capaz de mostrar como episódios aparentemente pequenos permanecem vivos por décadas quando atingem o corpo e o afeto ao mesmo tempo.
Continue acompanhando MIMMESMO
A série MIMMESMO reúne crônicas de Carlos Homero Giacomini sobre infância, família, corpo, memória, medo, humor e formação humana.
Continue acompanhando as próximas publicações e descubra como situações cotidianas, acidentes e relações familiares podem se transformar em matéria literária e em novas formas de compreender o passado.