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Crônica 19 — O filme que nunca existiu

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Em dias nublados, ficávamos reunidos, meia dúzia de primos, contando filmes num quarto lá em casa. Rodávamos pelos que cada um tinha visto e todos queríamos fazer a melhor figura, nos consagrar como narradores da melhores histórias. Eu não via muitos filmes e não tinha o que contar, então inventava conteúdo, e me esforçava pra caprichar na forma. Por vários dias, contava uma história que chamava de Mataram meu Irmão, concentrada em múltiplas formas de vingança do irmão morto. Mas como não tinha matéria prima pra desenvolver os episódios, ia, cada vez mais, fabulando enrolações com plágios sutis dos relatos dos primos. Mas apresentava histórias curtas com início meio e fim e fragmentadas, técnica diversa da dos outros narradores; com essa e outras artimanhas por mais sal e pimenta, agradava. Mas apesar de todas as formas, disfarces e novidades narrativas, um dos primos percebeu a inverosimilhança e disparou: “Atochada, esse filme não existe. Você inventou, e fica contando mentiras pra gente.” Pois é, só na tela grande a mentira podia ser levada a sério. Mas eu, naquelas tardes, penso que tinha a minha primeira experiência de narrador, com os riscos que isso implica. Você, por exemplo, sabendo que além de gatuno fui mentiroso e que eu não ficarei sabendo, talvez também deixe de acreditar nessas bobagens que escrevo.

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