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Crônica 18 — O bairro que enrolava balas

Perto dessa mesma casa havia uma fábrica de balas — caramelos pra não confundi-las com cartuxos de pólvora e chumbo aos quais muita gente dá preferência.  Automação era coisa do futuro e as balas eram enroladas uma a uma em papeizinhos coloridos por mãos humanas. Chegavam na casa da nona em latas de vinte quilos. A moça que morava lá pra cuidar dos velhinhos, ganhava um extra pra enrolar as balas nos papeizinhos. O bairro todo enrolava balas. E a moça, informal e terceirizada, coisa que ainda não tinham inventado, chamava a gurizada que andasse por ali pra ajudar no trabalho. O contrato rezava que a cada cinquenta balas enroladas pelo trabalho infantil, o trabalhador mirim quarteirizado e sem filiação sindical, podia comer uma. Trabalhávamos na casa da nona, sentados em torna da mesa, ouvindo as histórias da moça e comendo duas ou três balas por jornada. O trabalho era noturno e, apesar de não pagarem adicional, a recompensa era o alívio de algumas horas longe das brigas do pai e da mãe.

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