Sofro porque a morte me surpreende sem a fé completa que gostaria de ter. Fé na existência de algo além, desejo duvidoso. Oscilo entre o medo do desconhecido que, vez ou outra, preferiria trocar pela certeza do nada, e a certeza da existência de algo que, noutras vezes, preferiria trocar pelo desconhecido. Ninguém sabe o que é, alguns se esforçam para definir o que não seria. As posturas são marcadas pela vida que se leva: mais dominada pelas sombras, tristezas, descrenças; ou, pelo menos nos bons momentos, arranhada pela convicção de que toda metafísica sobre a morte pode ser vencida pelos “versos de um poeta com seu cachorro enrodilhado entre as pernas”, pela conversa ou pelo silêncio cúmplice de um grupo de amigos reunidos, pela algazarra de uma turma de crianças em festa. A outros ocorre o terror da eterna repetição do que se vive. Mesmo a promessa de reencontrar os que amam, em uma perspectiva de ordem livre de injustiças, de doenças, com felicidade plena, não poderia prenunciar-se extenuante em sua recorrência sem fim na moldura do tempo-espaço infinitos, como indagou Nietsche?
Mas, pode não ser nada disso. Lá, para além do espaço-tempo, da matéria e da psique, do amor e de todas as emoções, da mente e do pensamento, no seio do mistério onde tudo se transforma não se sabe no que, talvez fundamentos, chispas, raios, parte da parte inimaginável; lá onde não é possível sustentar raciocínios – supondo-se que fossem necessários – nas categorias que moldam a metafísica da morte como os humanos a concebem, seja no ocidente ou no oriente; lá, naqueles recônditos onde se poderia encontrar que a própria vida não passa de uma criação da mente, de um arranjo de ondas sobre o substrato da não realidade, do não espaço, do não tempo, da matéria e da energia escuras, uma outra-coisa-que-não-se-sabe-como-chamar, porque seja como for que a chamemos, incontinenti assumirá ares diversos renovadamente inomináveis, coisa outra, que não se enquadra no aqui engendrado, que só seria concebível sob categorias que não nos são dadas a conhecer. Lá, um mistério profundo. Medonho para os que a vida deprimida acompanha todos os dias em um constante pensar escuro? Risonho para outros que, no instante da morte apenas sabem, embalados pela esperança da paz, do conforto e do abraço, substâncias que seu espírito leve os conduziu a desfrutar também em vida. Sem desconsiderar os desesperados na vida e na morte, dos quais não se pode dizer que sejam menos lúcidos, se lucidez fizer diferença.
Da ciência, da filosofia e da fé são as tentativas de narrar o que sucede a morte, de buscar saber algo difícil de acreditar ou acreditar em algo difícil de saber. É da liberdade o desfrute da vida livre das hipóteses, na rendição ao mistério como possibilidade única nas vitórias ou nas derrotas, conhecidas trapaceiras. E no intervalo nossa humanidade, artífice de histórias belas como a saga: bilhões de astronautas a decolarem sucessivamente, como chispas, raios, do viaduto da estrada dos trens, plataforma de lançamento de foguetes, em uma reta inclinada ascendente infinita que ninguém sabe aonde vai dar. E em coro, se entoa o epitáfio dos que morreram na dura estrada, feito de atrito de aço com pedra com terra com pele. Meu amigo pescador com os pés na terra me deu de presente de aniversário uma caveira colorida mexicana. Ele acha que ela pode se tornar uma boa companheira, me recomenda que a leve comigo, e que conversemos.
— Dona caveira, porque razão ele me disse que eu deveria carregá-la sempre comigo?
— Talvez por ser um homem desperto.
— Homens despertos carregam caveiras?
— Homens despertos sabem que “os ossos que foram meus esperam pelos teus.”
— A lembrança do sono eterno para que nos mantenhamos despertos? — e vou levantando do banco onde estamos.
— Pois é — diz a caveira enquanto eu a apanho sobre a mesa —, lembrar é a minha missão de caveira colorida.
— Vamos logo — digo —, somos aqueles que vão morrer!
— Mas e você, o que faz da vida? — me pergunta a caveira com um sorriso.
— Caminho — respondo—, e retomo meus passos mancando, caveira colorida
sorridente embaixo do braço.
Meu amigo Pés-na-Terra, rindo, teria perguntado: “Haveria conversa mais
inevitável na vida, Guataha? “
Fato é que existiram os que morreram de rir, e de pânico. O Saci-Pererê conhece a todos e é suspeito de alguns desaparecimentos, pois usa e abusa do cinismo e do sarcasmo e, desconfio, me espreita da mata sempre pronto a me dar sumiço.
NA: “Bordado N’Água”, Parte I, Fragmento 12.
Do tupi-guarani: Guataha, caminhante.