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“Morte, óh morte! Onde está a tua vitória?”

Na planície litorânea, caminho pelo leito da estrada de ferro que liga a cidade do porto à capital. Seguiria por ela admirando tudo até a morada de Arandu Porã Karai, mas não é seguro dividir as estreitas passagens com os trens que sobem e descem a serra; centenas de túneis   estreitos, pontes dependuradas sobre a grota a cinquenta metros de altura, viadutos abissais, vãos curtos ou compridos. À saída de um dos túneis um viaduto em curva assentado sobre pilares de concreto cravados nos paredões de rocha da encosta, emula uma plataforma de lançamento de mísseis a convidar os trens para que se projetem em voo pelo espaço. Os silvos do metal das rodas nos trilhos soam como gemidos metálicos, entonação mântrica do epitáfio dos escravos negros alforriados ou dos imigrantes alemães, poloneses, italianos, recrutados da lavoura para a construção da estrada. Entre as pedras, túneis, pontes, viadutos, se pode imaginar as lápides fantasmas dos que morreram para cada obra de arte erguida na tessitura dessa glória da engenharia, estrada de ferro entre as mais ousadas do mundo. Projetada pelos irmãos Rebouças – dois engenheiros pretos denegridos por racistas – considerada impraticável pelos seus pares mundiais, nove mil homens trabalharam cinco anos na construção de seus cento e dez quilômetros.  Mais da metade deles perdeu a vida na saga: cento e vinte para cada um dos quatrocentos túneis, viadutos e pontes que fazem a fama desse caminho improvável. No século passado, trezentos metros de trem descarrilaram sobre uma ponte na parte baixa da estrada, maior acidente ferroviário da história do estado. As enormes cargas de soja e açúcar foram parar no rio Nhundiaquara, o Toca do Peixe. As águas ficaram doces por longa extensão, os grãos inchados e apodrecidos espalharam por semanas pela mata cheiro nauseabundo de leite velho. A abundância fora dos trilhos produziu o mais puro medo de que tudo se acabasse na Floresta da Chuva.  As trezentas e cinquenta toneladas de corpos de homens mortos na construção da estrada foram sepultadas aos poucos nas encostas e fundos de vale ou levadas para casa no lombo dos familiares. As três mil e quinhentas toneladas de soja e açúcar, de uma só vez esparramadas na serra, foram praga jamais sonhada por qualquer xamã nos rituais de mutação de energias do mundo de Aciguá.Penso que, para muitos, é preciso restar o consolo de que o fantasma da morte que a mente humana constrói, “essa metafísica distante do arado”, da música e do amor, não resista a, por exemplo, um beijo. “Morte, óh morte! Onde está a tua

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