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O pequeno simples

No pequeno barco chegamos ao atracadouro de destino. Enquanto pulo para a terra firme com meus poucos pertences, Pés-na-Terra, meu amigo do mar, grita: “Até logo, Guataha! Seja breve.” 

Ser humano admirável esse meu amigo, sempre a contar da história de amor que tem com sua morena gostosa, que ele sabe, reconhece e anuncia. Se não pudesse ser carinhoso e ter por ela o tesão que tem, seria um perdedor. E isso é frequente no mundo, pois são muitos os que não sentem o amor. E o qual seria o segredo? Se soubesse me revelaria. Porque, “sem falsa modéstia, o mundo é mais bonito com amor”.  Ele e a mulher aprenderam juntos que ficar em silêncio, sozinhos olhando da ilha o mar, pode sarar dores. Quando é capaz de sair da tristeza por conta própria, enche o coração de ternura, e é fácil amar a mulher. 

Com olhos vívidos no meio das pálpebras enrugadas de sal, o meu amigo pergunta como vai o meu amor, caso eu tenha um.  Quando o homem pisa na Lua, ele conta que fica assustado pensando que poderia estar no lugar de um daqueles astronautas e ficar para trás, desastrado que sempre é; e daí vagar no espaço, perdido, sem saber onde está, aonde vai e por quanto tempo estará só. Solidão de arrepiar! E mesmo me conhecendo pouco, diz que, às vezes, eu é que lembro um astronauta solto no espaço. Nessas horas, ele temeria menos por mim se soubesse que tenho um grande amor. E enquanto eu sinto a solidão, ele pensa em diminuir minha aflição. Diz que nem tanto um astronauta desgarrado eu lembro, mas, principalmente, uma criança sentada sobre um planeta distante, olhando desconfiada para cima e para os lados, como um cachorro caído de um caminhão de mudança. E, como ele é meu amigo, em sua fábula, não serei cachorro nem criança qualquer, mas o pequeno simples, como histórias que a mulher repetem noites de luar. Este meu amigo Pés-na-Terra talvez faça falta nas minhas jornadas, mas sempre posso lembrar das coisas que ele me diz que é bom que eu saiba, mesmo que às vezes eu me impaciente com suas cautelas de homem do mar com pés-no-chão.  

NA: “Bordado N’Água”, Parte I, Fragmento  7

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