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Crônica 9: Rosto entre as mãos

  • MIMMESMO

Ela morava numa casa grande de esquina, tão velha que foi tombada pelo patrimônio histórico, cercada por um pátio imenso com milharal e árvores frutíferas, em especial uma gigantesca pereira que cobria de sombra fresca o lugar em que ela se sentava com as visitas pra conversar e tomar chimarrão. Pra crianças de seis, sete anos, naquela casa tudo era um mundo de oportunidades pra doces velhacarias, inclusive a de espiar pelas frestas a pretinha fazendo xixi na casinha. Lá pelo meio da tarde a nona dava um tempo nas conversas, chamava a gata Tamonina e as crianças. Faziamos uma roda embaixo da pereira e ela distribuía moranguinhas do tamanho de uma caneca que cozinhava na água e enchia de açúcar. Comíamos aquela dádiva enquanto ela, com a Tamonina no colo, nos observava evaporando contentamento. Havia igualmente os dias em que ela distribuía fatias de pães grandes como uma melancia, que sovava com as mãos entortadas pela vida, e que cobria com manteiga caseira conservada sob água e cremosa como nunca se viu. Que pão com manteiga era aquele?

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