O que as dúvidas me provocam? Sobre meus ombros, apetrechos para minha capa de carne. Dentro do meu crânio neurônios, essas celebridades, tudo que tenho para buscar significados.
Atravesso a cidade do porto, lugar de circulação de mercadorias desde o século XVI. Volto a pensar nas pestes e, naturalmente, na falta crônica de meios, em uma pátria em que eles sempre faltaram, para combater os sofrimentos da pobreza e a pobreza dos sofrimentos – de homens, plantas e animais. Cidade de lucros, cujo progresso piratas, doenças e querelantes de toda espécie, não lograram sufocar.
Guardo uma publicação do pesquisador Max Glicíneo na revista Soja Grão em Grão (vol. 1563, nº 6, ano 3), que, como consta da página 223 do abstract, discorre minuciosamente a respeito “da produtividade da cultura da oleaginosa e suas respectivas demandas relacionadas a exigências climáticas, rotação de culturas, fertilidade do solo, cultivares, sementes, fungicidas, micronutrientes, instalação de lavouras, controle de pragas, retenção foliar, adaptação climática de espécies…” Impressiona o bocado de questões que é preciso resolver para esquadras de duas dúzias de colheitadeiras, dispostas em V como bandos de gansos de arribação, avançarem por cinco milhões de hectares de campos colhendo quinze milhões de toneladas, grão em grão, que acabam em carrocerias de caminhões, milhares deles, se enfileirando desde cento e trinta quilômetros do porto, a arteriosclerosar a estrada do primeiro planalto ao litoral, por onde descem os grãos para os silos e porões dos navios, e daí para a China e o mundo. Condutos por onde flui o maior volume de grãos que flui por um porto do país, prestes a se tornar o maior exportador mundial de soja. É o Brasil celeiro do mundo, com trinta milhões de pessoas que não comeram o suficiente hoje e não sabem se vão comer amanhã. Ao ler o tal artigo e pensar nisso, leio na internet, logo a seguir, que cada tonelada de soja brasileira vale um chip americano.
E pensando que o melhor de mim possa não ser apenas um emaranhado de celebrados neurônios, meu pequeno simples apaziguado reafirma que a visita a Arandu Porã Karai será uma das coisas boas da vida.
Do tupi-guarani: Arandu Porã Karai, Sábio do Bom Conhecimento.
NA: “Bordado N’Água”, Parte I, Fragmento 9