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A Terra é que é lugar confortável

Enquanto retiro meu equipamento do barco, penso que há coisas que imagino ver com nitidez e logo se reapresentam anuviadas, supostas certezas sacudidas por novas interrogações. A invocação da minha imagem de astronauta desgarrado que não sabe aonde o desconhecido o leva impressiona também a mim, que me imagino lançado tal qual chispa, disparo, raio ascendente cosmos afora, desorientado na imensidão.  Haverá alguma surpresa no presumível choque com um dos trilhões de astros dos céus? Sobrarão apenas fragmentos ou posso acreditar em largas e desobstruídas autoestradas da alma? No outro extremo, sou luz ou partícula no orbital microcósmico de um átomo, uma coisa ou outra, sempre apenas possibilidades?  

A terra é que é lugar confortável. Basta que me desloque por afetos e ódios, mistura do caldo inconsciente das coisas que nunca lembro, as mesmas que jamais esquecerei. Nas coisas da terra firme, quase sempre, um abraço é tudo de que preciso, noutras só de um chá. Porque de um chá não enjoam nem os enjoados de tudo, que acham difícil pensar num próximo dia e, no desespero, cogitam da morte como aconchego, sem dispensar um banho quente antes. E no fundo da jazida dos mistérios, busco paz para o medo de perder-me e nunca. Talvez aja mais alguém observando isso daqui. Seria bom ir de mãos dadas ao velório dos planos existenciais que nada predizem nem presidem, jogar tudo nas costas de um inefável na espia, amar a solidão para permanecer acompanhado e poder brincar como as crianças brincam. Mas e o espaço sem fim? Mina em eterna escavação?  A certeza de que a viagem é sem retorno? A suspeita inquietante de que possa destinar-se a sofrimentos novos, desconhecidos, diferentes dos que já me habitam? E êxtases inimagináveis duradouros que eu não sei o que é e onde se encontram? Existência ameaçada pelo desamparo, que desejo combater com o significado que desconheço? O que me prostra abandonado, desprovido de qualquer ajuda de homens e deuses? Quando essa neoangústia toma forma, desejo a segurança da grande tristeza ou de uma dose de pânico, descarga no relâmpago do raio. Perdido no sem-fim, cheio de perguntas e vazio de verdades, tenho medo da liberdade dos pensamentos e sonho com a mente em paz. Hastear alfa, bravo, charlie, delta; arriar alfa, bravo, charlie e delta. 

Meu amigo pés na terra me diz que o bicho homem não é nenhuma gracinha, nem projeto de anjinho; faz coisas que nem animal faz. Diz que quando o homem faz maldade sozinho, ruindade do coração mesmo, já é inacreditável: ofende almas, esmaga espíritos, tortura corpos, aterroriza mentes, arranca, estripa, carneia. E faz isso com mulher, amante, pai, filho, família inteira. O Monstro dos Andes, orgulhoso condenado por matar dezenas de mulheres violentadas, se gabava garantindo que foram muitas mais, centenas. Hehe. 

Diz também, o meu amigo, que têm livro, filme e tela que mostram guerras, e vê que a pobre história é matança sem fim. Praticada por um só, a maldade já pode ser inacreditável, quando se junta em grupo, então, não dá pra imaginar o que virá; negócio incalculável. Mas claro que tem também gente boa. O seu Valtinho pescador da Ilha do Superagui, por exemplo, é um santo homem, não se vê tamanha bondade por aí. Diz que ele mesmo – o meu amigo, vejam só -, não é lá flor que se cheire, mas que, perto do que já ficou sabendo, tem o céu garantido. 

NA: “Bordado N’Água”, Parte I, Fragmento 8

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