
Felicidade de me sentir triste era, por exemplo, a melancolia de ver meu pai no esforço de fazer o motor do jipe pegar com a manivela tocada a suor, nas partidas das viagens entre as duas pequenas cidades de nossos destinos, evitando pelo trajeto os poucos quilômetros de asfalto que o assustavam — exímio motorista das estradas de barro dos seus tempos. E o jipe avançava pelo caminho pedregoso, aventura na paisagem dobrada de puro mato, em destaque as araucárias. Demorados quilômetros à frente, chegávamos à casa do colono que servia refeições e nos aconchegávamos à mesa redonda com centro giratório, momento alto da viagem, superado apenas pelo abraço à nona no destino final. No centro da mesa giravam pratos de polenta, galinha, radicci, fatias de queijo de colônia, sem que, apreensivas, nós crianças precisássemos pedi-los ao pai ou à mãe: ao pai porque nunca se pedia nada sem medo, à mãe, tensa e ansiosa, porque sempre derrubava as coisas. Um mundo de flocos invisíveis de melancolia, organizado e em paz na beira daquela estrada, porque lá nada de ruim acontecia, se bem me lembro.