Afastando-nos do paraíso da Ilha de Superagui, o olhar em perspectiva me lembra os desenhos do suiço (W. Michaud, +1902). Obrigado a abandonar a pobreza da terra natal alpina um século antes do reconhecimento dessa costa como Patrimônio Natural da Humanidade, escolheu-a como destino. Deu asas à aventura nas terras distantes de casa imaginadas como criadouro de jacarés e, com coragem, aportou na fabulosa ilha onde nos últimos anos eu mesmo decidi viver. O suiço devotou a vida ao progresso do paraiso com um punhado de companheiros do velho mundo. Foi professor dos nativos e pintor autodidata dedicado aos detalhes das cenas do mundo estranho no esforço de decifrá-lo, enquanto fugia dos jakares de suas fantasias. Com poucas tintas e muito empenho, pensou que ressignificava aquele universo junto com a mulher nativa, com a prole farta, alguma propriedade e muitas gravuras para desvendar os mistérios do lugar, sem nunca deixar de escrever cartas de saudades para os familiares distantes. Os desenhos e cartas são os únicos vestígios da sua existência. Envelhecido, viúvo, solitário com a morte da mulher e dos companheiros da colônia, destituido da condição de professor e saqueado pelas tropas da nascente república, registrou em suas derradeiras anotações: “Foi uma vida perdida. Uma tolice motivada pela juventude.”
Muito depois do suiço, veio dar na ilha um navio pesqueiro chinês. O cozinheiro, em uma madrugada, trancafiou nos quartos a tripulação e trocou as mangueiras de ar das cabines pelas de amônia dos frigoríficos matando vinte e dois marinheiros por asfixia. Jogou os corpos ao mar e amarrou no mastro o comandante e o maquinista. Ficaram à deriva até torrarem ao sol e o barco sarcófago encalhar na ilha próximo ao túmulo do suiço. Talvez, para que as ondas do mar diluíssem os restos da sandice assassina, do mesmo modo que se dissolveram as alegrias do suiço no paraíso hostil, tão distante de sua terra de montanhas geladas. Talvez, o suiço seja uma das espécies extintas do Superaguí, basílica do mundo dos manguezais; talvez, a vegetação que toma conta do pequeno cemitério e mistura seu tumulo à ilha para sempre, seja a cena que não anuiu retratar; talvez, o paraíso e o inferno estejam sempre na iminência de se revelarem convívio tenso de contrários presos a uma ilha.
NA: “Bordado N’Água”, Parte I, Fragmento 3