Ao atravessarmos a baia minha serenidade só não é completa porque sinto parte do meu melhor tempo me ser roubado quando me afasto deste paraíso. Dando o máximo, o barquinho que me conduz da ilha para o continente levará mais de três horas, o ritmo cadenciado do motor perturbado apenas pelas rápidas palavras trocadas com meu amigo Pés-na-Terra, e pela minha impaciência com suas cautelas de marinheiro, que retardam a travessia. Como sempre nas caminhadas, légua a légua, braça a braça, me dedico a observar tudo o que os esforços dos meus sentidos permitam, e ir além se me for concedido. Toda vez, mantenho tanto respeito quanto um carijó para que nada me escape aos olhos e, quem sabe, à alma. Desconfio não ser proficiente para entender um pouco só desse vasto mundo. Pelo que consigo ver e pelos mistérios que me escapam faço estas travessias sempre reverente. No trajeto, difícil ver às Sras. e Srs. mico-leão-da-cara-preta, bugio, papagaio-da-cara-rocha, onça-parda. Já o Sr. boto-cinza, curioso, costuma acompanhar os barcos, de olhos esbugalhados a se exibir para os ocupantes. As Sras. e Srs. sabem, desejo ser hóspede destes seus domínios até o fim dos meus dias, por esses mares ilhas praias restingas dunas. Sei que quase todos os infindáveis recortes desta costa e cada metro desse imenso manguezal vermelho preto branco, foram destinados só para os íntimos, mas mesmo a fugaz companhia com que me brindam é muito mais do que minha natureza me permite absorver: admiração e mistério para muitas reles vidas como a minha.
Recomendações às Sras. e Srs. canários-da-terra coleiros tiés-sangue, sapos mexilhões gralhas, saíras sabiás bagres, lagartos jacarés pescadas, jararacas cambacicas betaras, beija-flores xerimbabos robalos, corais corvinas caninanas, pavões tainhas baleias-franca, veados tatus tartarugas, pacas curiós caranguejos, periquitos cutias gaivotas, capivaras cachorros-do-mato rolas, garças estrelas-do-mar saracuras, ouriços onças-pardas toninhas, gatos-do-mato tesoureiros iraras, inhambús onças-pintadas jacús. Perdoem-me se de muitos me esqueço, se a muitos mais eu desconheça e se de outros tantos nada se saiba. Reverência especial ao Sr. Saci, conheço as responsabildades dele, assovio associado às suas peripécias. Minhas desculpas por não poder evitar que manchem sua reputação de negrinho perneta arteiro espalhando histórias de chicotadas para castigar jovens madrugadeiros e crianças que entram no mato. Gela o sangue o seu assovio fenfém curto fino que antecede às chicotadas e invade desde as proximidades da floresta até aos rincões distantes. Parente afastado de Pã, o Saci sabe das ervas e suas curas, mas só leva a sério esconder coisas de velhos e assustar cavalos e gentes. Alguém disse que o humor é a única qualidade divina dos humanos. O Saci pode não ser humano, mas é divino, redemoinhando em uma perna só ou aprisionado em uma garrafa.
NA: “Bordado N’Água”, Parte I, Trecho 2