Pular para o conteúdo

Crônica 16 –  Tilintar de Lata, Zombaria e Culpa

As coroas do funeral do vovô eram de flores de lata. Não eram bonitas, mas tilintavam bastante, e duraram até serem esquecidas; tanto que ficaram guardadas por anos no porão. Netos adolescentes em noite de tédio, acompanhados por alguns outros meliantes, concebemos sair pela cidade carregando-as pra assustar com os tilintes, que supúnhamos amedrontadores, motoristas que parassem nos cruzamentos. Não dava certo. Depois de buzinaços e ameaças de chineladas na bunda, jogamos as coroas num terreno baldio, fomos pra as respectivas casas e, furtivamente, nos enfiamos em nossas camas quentes rezando pra que possíveis investigações a respeito fracassassem. Não me lembro de alguém ter dado pela falta das coroas, mas enquanto escrevo, lembro, isso sim, de não ter pedido desculpas ao vovô, que em sua beatice, a julgar imperdoável o crime, não as aceitaria, e quem sabe até nos tivesse castigado com uns cascudos, indo depois chorar pelos cantos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *