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Crônica 14 – Tijolos Quentes e Moedinhas Frias

  • MIMMESMO

Como ingratidão a essas e outras tantas lições, eu, de forma reincidente, roubava uns trocados da bolsa da vovó. Crime premeditado, pois sabia o dia que ela recebia a pensão e esperava que se afastasse bastante do quarto pra ter certeza de que seria mais ligeiro que ela com suas sequelas de derrame. Ela nunca notava e eu sempre me arrependia, mas os furtos eram inevitáveis, pois eu não tinha outros meios de obter o dinheiro pra alugar bicicleta pra as incríveis incursões de sábado pela cidade junto aos meus camaradas. Pra compensar, além de me arrepender, eu estava sempre pronto a atender as ordens da vovó. Como cúmplice, no caso da compra de umas garrafinhas vermelhas de soda que ela misturava a um traguinho de bebida alcoólica vetado pelo médico; como camareiro, quando, nos invernos, eu esquentava tijolos no fogão a lenha, envolvia em toalhas, ajeitava na cama junto aos seus pés e arrumava os cobertores, aconchegadamente, em torno do conjunto. Me perdoa, vovó? Ou será que ele sabia?

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