Com a mãe da minha mãe, a vovó, a conversa era outra. Ela morava numa casa nos fundos da nossa. Caminhava arrastando a perna esquerda com o braço do mesmo lado fletido e colado ao corpo; tinha sofrido um derrame. De minutos em minutos, recolhia do canto da boca, com um lenço encabidado no braço paralítico, a saliva que sua bochecha não conseguia reter, gesto precedido por uma pigarreada desagradável. Obtinha do pai durão o que desejasse: “sim senhora, senhora minha sogra”. Era passeadeira e repetia suas caminhadas arrastadas até o centro da cidade diariamente, bem arrumada, vaidosa que também era, a pensar em namorado. Se dizia descendente por parte de mãe da nobreza castelhana das margens do Rio da Prata. Era altiva, boa leitora de romances, gargalhante, e conversava muito comigo. Uma vez, sentados num banco de cimento que havia no alto da escada que subia para as nossas casas, trocávamos ideias — incomuns do ponto de vista da hipocrisia que reinava sobre o tema —, a respeito de gravidez na adolescência. Ela me disse mais ou menos isso: “Este é um drama que sempre existiu, mas era muito escondido. Meninas que passaram por isso sofreram como sofrem as de hoje.”