Ao cruzar a cidade do porto, imagino o som da rabeca com a viola e o adufo nas marcas dos bailes em tempos de intrudo, quando era dança e barreado, e carijós impactados com o abafa ao rufar dos seus tambores pela batida cadenciada dos pés caiçaras no chão de terra e nos assoalhos das casas com pilares sobre água para propagar distante o ritmo do fandango. Chiquinha Gonzaga estava no naufrágio do vapor São Paulo no retorno da guerra do Paraguai, seu gosto por aventuras a levá-la a seguir o capitão marido, e seu encanto pelo fandango a inspirar suas valsas, polcas, tangos e maxixes. E me distraio com um rabo de conversa de caiçaras agitados na cabeceira da ponte entre a cidade e a Ilha dos Valadares: “Preguei-lhe seu coisa! Ah, meu bonje. Dá-lhe que te do-lhe uma! A vontade que tenho é de te enchê de porrada bem de com força. Num fiz nada. Não tenho curpa. Não se de pouco do quase que não. Coisa bôbo. Esquecê de avisá as pessoa do armoço. Seu fela da puta! Cumpremo, trabalhemo, preparemo tudo…e quedele aquele um e a famiage? Sejinha… Que bom se sesse esquecimento. Foi é uma confusão dos diabo. Crendiospai! E já vô já que sáminina tá na espera.”
Deixo a cidade e sigo pela planície litorânea. Disseram-me que o processador em minhas botinas estará registrando em tempo real, a cada instante, as distâncias que estarei percorrendo no deslocamento, a velocidade com que estarei me deslocando ao longo das distâncias, as temperaturas do corpo e dos lugares que estarei passando, a umidade, pressão do ar, traçado eletrocardiográfico, pressão arterial, glicemia, creatinina, oximetria do sangue, oligoelementos; que a presença de um localizador geográfico estará completando o processo de registo total a que estarei sendo submetido: exposição monitorada em tempo real à distância, minuto a minuto; que o impacto de meus passos estará recarregando as baterias, que estarão mantendo em funcionamento essa e outras tecnologias que, bovinamente concordei em carregar para o bem da ciência. Explicaram-me-, embora meu pouco interesse, que a união de vários processadores estará tornando todos esses registros mais velozes porque o trabalho estará se dando em incontáveis registradores em cooperação que estarão chegando aos resultados finais sempre mais velozmente e mais inteligente artificialmente – que, aliás, inteligência não é, dada sua incapacidade cognitiva com relação ao que ainda não aconteceu. A forma do discurso, que muda de minuto a minuto, me distrai do conteúdo. De qualquer forma, desconfio que, nalguma medida, o mundo de computadores, redes, interfaces biomecânicas, instantaneidade, interconectividade, velocidade, é uma metáfora das coisas relatadas pelo Morubichaba de Yvy MarãEy. Ocorre-me, como aos guias de viagem que guardam as paisagens deslumbrantes para determinado ângulo no ponto exato do caminho para causar espanto aos turistas, que o universo tecnológico é quase apenas ângulo exato sobre o que naturalmente não é oceano, montanha e céu verdadeiro, ou seja, sobre o que quase nada é; e os dados que resultam disponíveis no mundo, e dobram em poucos minu0tos, sempre mais veloz e logaritimamente astutos, são apenas metadados ou, melhor dizendo, receita de sopa de pedra da gastronomia das prosperidades, lucros e inconcebível concentração das riquezas da Terra por escravagistas novos. Até aqui, meus dados vitais nas nuvens, manipulados pela astúcias eletrônicas, engolindo rios de energia como manadas de hipopótamos engolem capim — que me desculpem os hipopótamos —nada podem acrescentar à justiça, à consciência, às emoções e à transcendência, aos meus desejos dos desconhecidos futuros rumo aos quais toda essa gororoba jamais poderá partir. Eu estou entre os que preferem caminhar munidos do ralo acervo das andanças, da diminuta equipagem, das escassas e relativas certezas, pela existência afora. Eu, como a astúcia tec, também não sei para onde vou, mas sei que não é razoável reduzir minha existência a um ligado / desligado sem fim.
Encerro minhas ilações tec lembrando que cada chip americano, menor do que estribo de ouvido médio, tem quase cinquenta milhões de componentes eletrônicos, mais da metade do número de toneladas de soja produzidas em um ano no Brasil. E levando tudo isso em conta, agradeço aos céus, aos engenheiros e aos operários pela água que sai da torneira quando giro uma manopla e a luz que enche meu quarto quando aperto um botão. Delta, charlie, bravo, Alexa!
Do tupi-guarani: Morubichaba, aquele que vigia a terra, chefe, líder.
NA: “Bordado N’Água”, Parte I, Fragmento 10