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Alfa, bravo, charlie, delta…

E lá está o segundo maior porto marítimo do país. Alfa, bravo, charlie, delta, alfabeto inteiro de alertas de vida e morte para orientar marinheiros. E vejo piás empoleirados como bugios em paus fincados no cais, com os olhos semicerrados pelo sol, a enxotar a piscadelas moscas volantes das córneas, procurando por notícias boas nas bandeirolas, sonhando em partir para um paraíso, ainda impensáveis os infernos. Ouvem dos antigos, que ouviram dos mais antigos, sobre barcos com a bandeira amarela avançando lentos na baia, qual espectros pestilentos envoltos em nuvens miasmáticas, ora em vez a desprender pedaços nas águas, ameaçando a vila com o cólera, a febre amarela e a varíola, a terrível peste do oriente; sobre navios pesteados a vagarem de porto em porto sem guarida, repletos de pessoas purulentas abandonadas em quarentenas miseráveis; sobre vacinas rudimentares feitas do pus das chagas da praga, com gente a fugir delas como crianças do Saci, e a implorá-las em desespero ao verem pessoas cobertas de vesículas e pústulas morrendo ao seu redor nas epidemias. 

E nas asas pesadas de minhas divagações já flanam passarinhos sacis baixinhos presos a mastros, barqueiro quase mudo plantas animais, livros sem fim piratas pesteados meninos empoleirados, naufrágios e autoridades.  Não há cartas de voo ou navegação. Sob meus pés – um deles bastante inchado e dolorido – o mundo sem mapas desliza, e eu deslizo com ele.  

NA: “Bordado N’Água”, Parte I, Fragmento 6

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