Na época das festinhas de quinze anos, rito pequeno burguês que tive a sorte de desfrutar muitas vezes, me arrumava para as ocasiões com dedicação e criatividade. Ainda mais se estava com piodermite e esperava dançar com a mocinha do coração com o rosto colado. A doença de pele causava umas feridas no meu rosto, redondas, do tamanho de um botão pequeno, crostosas e um pouco úmidas, não muito fáceis de disfarçar. É claro que um bom tratamento com penicilina teria posto o mal a cabo em poucos dias, mas as minhas orientações não passavam da recomendação de beber chá de sabugueiro. A dedicação ao nosso preparo fashion pras festinhas ficava por conta da mãe, que não abria mão de que os filhos fizessem boa figura e se desdobrava costurando vestidos, calças e camisas no verão, e tricotando maravilhosos blusões no inverno. No caso da festinha com piodermite, criatividade e empenho me levavam a recortar discos de bandeides, um tantinho maiores que as feridas, que colava no rosto sobre elas como parte da tática. Fui à festinha um pouco sem confiança, “será mesmo que não cheira?” E, em vez de cumprir o sonho de dançar de rosto colado com aquela mocinha, bebia bastante, assumia o posto de DJ e passava a festa rodando Chico Buarque e Creedence na radiola.