Depois de passar semanas com dor infernal, e enfiar no dente algodão com álcool, cera dr. lustosa e outras porcarias, me levaram ao dentista. “Muito ruim isso daqui. Quem manda comer rapadura e não escovar os dentes? Vou ter que arrancar. Tá vendo o buraco que já se formou?” Não, eu não via, mas sentia, conhecia o buraco, a fundo, das inúmeras vezes que o preenchia com a ponta da língua ou enfiava cera nele pra me reabilitar pras guerras de espadas de pau e batalhas de rabo-de-burro junto com meus amigos que, com ou sem dor de dentes, jamais se rendiam. Grandes guerreiros! Saí do tiradentes sem o primeiro molar inferior à direita. Adulto, com os dentes tortos pela falta daquele molar, usei aparelhos durante alguns desconfortáveis anos, não pra ficar lindo como as mulheres Padaung, mas pra não detonar a articulação do meu queixo que doía e estalava ao lado de estranhos no café da manhã, me fazendo ficar tristemente envergonhado. A canjiqueira voltou parcialmente ao lugar e eu fui dispensado pelo dentista das bráquetes, fios metálicos, extensores. Mas, algum tempo depois, meus pobres dentes tinham, teimosamente, voltado pra seus antigos lugares. Disso tudo eu lembro com certeza. Inclusive que, a rapadura, eu afanava da loja do moinho onde meu pai era diretor.