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Naufrágios

Naufrágios

Passando ao largo das demais ilhas da baia  vejo os navios no canal do porto e no cais.  Baia, ilhas e navios evocam incríveis histórias antigas que o povo de agora pensa que existem apenas em filmes de piratas. Mas, no fundo do mar, as carcaças dos naufragados emulam  sambaquis  carijós e tupiniquins, testemunhas de desventuras de ingleses que perseguiram navios negreiros; de transportadores de armas cuja guerra fez água ao afundarem em frente a uma  praia deserta; de franceses  carregados de prata perseguidos por bucaneiros  concorrentes desaparecendo na tempestade perto da vila. Tudo fruto da parceria de moradores  com a Virgem do Rocio, que em outras ocasiões também mostrou sua cumplicidade com aquela gente salvando-a  da ameaça da peste; e sua predileção pelo convivío com as pessoas comuns, pois se insistiam em confiná-la ao templo, sempre voltava  para a casa do pescador que a recolhera perdida nas águas. Há registros de  sobreviventes que, em comprovação à  misericórdia divina e ao perdão humano, foram recolhidos à vila e, deixando a pirataria, passaram a fazer filhos nas carpideiras que antes rezavam para que naufragassem. 

Naufrágios, naufrágios! “O horror! O horror!” Da menina bebê, aos dois anos moída a pancadas pelo pai especialista em vale-tudo, para que aprendesse a ficar calada e não manifestar medo ruidoso, não rir com o leite e nem chorar com a fome. Do desamparo do carijozinho abandonado a enfrentar sem compreender as agruras do convívio com os monstros d’alma, esperando o retorno dos antepassados que conhecem o caminho para Yvy MarãEy. De Senaqué, Tacuavé, Vaimaca e Guyunusado, os charruas sobreviventes da emboscada genocida ao seu povo no Uruguai espanhol, exibidos na Europa como canibais do novo mundo. Do inacreditável atroz envenenamento “da rosa radioativa estúpida e pálida” em Hiroshima e Nagazaki. Da obra dos arquitetos do inferno em Chelmno, Treblinka, Auschwitz-Birkenau… Do Holodomor de Stalin que matou de fome dez milhões de ucranianos. Dos vinte milhões de congoleses chacinados sob as ordens de Leopoldo I da Bélgica, o rei-borracha. Do Grande Salto para Frente, de Mao Tse Tung, que precipita na morte por desnutrição quarenta e cinco milhões de chineses. Do genocídio em Gaza. Alfa, bravo, charlie, delta! 

NA: “Bordado N’Água”, Parte I, Fragmento 5

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