Fertilizantes do cinismo, histórias como as do suiço me dão raiva e medo. Evocam meus próprios possíveis desatinos? De graça rara, mas igual substância? Medo de me sentir como um Dante obnubilado, que sem saber como seguir na estrada verdadeira ou se um dia sequer nela tivesse estado, recusasse o apelo de Virgílio para manter a coragem no Inferno e continuar em direção ao Paraíso; como se além dos argumentos de Virgílio, eu negasse também o apelo de Beatriz para que fosse corajoso e, sequioso de repousar meu neuroma dolorido, rogasse ser conduzido por atalhos que evitassem as feras infernais: o vislumbre do invislumbrável, visão dos respectivos eternos castigos a que estarão submetidas as distintas categorias de homens perversos.
O suiço, embora professor, talvez nunca tenha lido Dante, e eu não sei até onde Dante poderia ter sido para ele mais do que apenas monumental epopéia. Qualquer um, os simples e os com acesso às formidáveis obras da criação humana, aos cumes que a inteligência e a arte logrem alcançar, façam o que fizerem, por mim é que não serão julgados, embora, às vezes, meus medos raivas saudades me desnorteiem. Raiva de mim mesmo que persisto, romantico, a ecoar o canto opaco dos ninhos destruídos dos bem-te-vis e, incrédulo, me inclino a sintetizar cinismo na alquimia da vida com a mesma destreza que as plantas sintetizam energia na fotossíntese.
Talvez por isso, eu guarde ecos amargos e desconfiados do amigo que subiu no telhado de sua casa e em segundos jazia no chão com a cabeça quebrada, reverberando aos urros coisas desconexas tronculares a revelarem sua morte cerebral, muito embora a longa UTI que viria. E lembro do risoto errado que fiz para ele, motivo das suas tantas e queridas gozações. “Volta amigo, para brincar comigo, para gozar de mim.” História fertilizante do cinismo? Tenho o direito de pensar que, ao cair do telhado ele não limpava uma calha entupida, mas, obnubilado como o meu Dante, abria o canal que o escorregava para o fim? Não escutou os argumentos de Virgílio? Não ouviu o pedido de Beatriz? Sabendo agora, do fundo do meu coração senciente, que cair de um muro é uma possibilidade de fim dantesco, faço uma longa pausa para chorar por você que me dizia: ”Eu te amo!” O que fazer senão levar este medo que fica para andar comigo por aí? O que fazer senão gozar a impregnação dos contrários de cada coisa? Sorver cada gole das tensões dos sentimentos siameses contraditórios sabendo que tudo pode se acabar em um domingo com uma queda de uma merda de um telhado?
NA: “Bordado N’Água, Parte I, Trecho 4