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Quem quiser saber meu nome terá que caminhar comigo

Quem quiser saber meu nome terá que caminhar comigo

Justo eu, que sofro de um neuroma no pé e manco a cada passo, faço de passos sem fim a tentativa de apertar com mão amiga a garra que me arrocha o peito.   Retomo hoje a infindável jornada. Sinto cada etapa como se fosse a primeira, o início, tal o cruciante prazer e a ansiosa expectativa em que sempre me mergulham, o desafio do equilíbrio no tênue fio de prata das descobertas sobre o abismo das incertezas. Minha vida é a extravagância de caminhar sem tréguas, mesmo que na maior parte do tempo tenha de me esforçar para acreditar na possibilidade de avançar e me manter impassível diante de pretensos avanços, pois podem ser qualquer coisa diferente do que sei a respeito deles e inúteis os meus esforços na direção presumivelmente certa no terreno duvidoso. Se alguém quiser saber quem sou, responderei, “Eu caminho!” Até alguns dias pensava ter esgotado minhas inquietações e poder parar, mas recebi a carta de Yvy MarãEy, a Terra sem Males, e parto mais uma vez. Viver é caminhar e há de tudo pelos caminhos.  

Não vejo como superior o destino de caminhar sem fim, apenas duvido de que pudesse haver outro que me arrastasse. Quem afirma ter feito outras escolhas, aparenta ter as mesmas incertezas, não saber mais sobre caminhos ou viver felicidades e esperanças, tristezas e desamparos, mais intensos que os meus.  

Às vezes, a vida me remete a uma imagem em um espelho que estaria fadado a mirar para sempre, que se repete em outro espelho à frente e, aprofundando-se em repetições sem fim, me ameaça com o aumento do tédio. Ou melhor, me leva à biblioteca borgiana, pilha infinita de galerias hexagonais repletas de livros, cujos pavimentos sobem aos céus e descem aos infernos, e onde a única possibilidade é gastar todo o tempo para ler apenas uma diminuta fração dos livros que existem ali. Nela tenho o direito de guardar a que considero ser a minha obra-prima em estante iluminada, ou de lançar no pântano do verbo esquecido o livro que não escrevi.  E fosse o meu tempo infinito como os hexágonos dessa biblioteca e seus livros, enquanto voasse para a galáxia de JADES-GS-z13-0, ou submergisse ao coração de um bóson, minhas leituras seriam interminavelmente repetitivas. Com elas eu teria respostas ou se avolumariam minhas incertezas? Talvez fosse melhor simplesmente observar da sacada da minha casa a tecelagem de ninhos de bem-te-vis na primavera, mesmo que a seguir lagartos os destruíssem. Talvez, eu só possa assegurar ainda menos, apenas uma vida finita de movimentos presos a esta capa de carne e ossos que, com o passar do tempo, vai me encarcerar na velhice e culminará na paz dos cemitérios e na promessa de algum repouso cósmico pós-derrota do meu ego que da morte não passará, apesar da malfadada insistência de que em vida ele viesse a ser vitorioso vez ou outra. Talvez, seja possível também, aquietar o metabolismo das minhas células e produzir vazios mentais, cujos benefícios e prazeres derivariam igualmente de deixar suspenso por instantes algo de mim. 

Irias comigo Andar pelos treze céus?  Mediríamos nossos passos pelo canto longo que espalharíamos no ar com nossos companheiros e companheiras, deixando nossa humanidade pelos Caminhos? No final da grande jornada sonharíamos ser Ayvucué e descansar na Esperada Luz? Quem quisesse saber onde moramos saberia apenas por onde andamos, quem quisesse nos visitar teria que Caminhar conosco. Quem nos procurasse divindade, nos encontraria humanidade, quem nos buscasse humanidade, nos acharia divindade. Seríamos partícula e onda, raio e trovão, dia e noite, luz e sombra, vida e morte. Quando fossemos uma coisa seriamos também a outra e nenhuma. Quando vissem o raio, seriamos o trovão. Quando avançasse o dia sobreviveríamos noite. Quando luzes iluminassem, nossas sombras avultariam. Em vida, tatearíamos o abraço da morte irmã. Caminharíamos a jornada pela terra e pelos céus, pelos ares e pelas águas. Conosco rolariam pedras, plantas e animais, e encontraríamos almas penadas e toda a sorte de Guatahas companheiros. E vendo tudo procuraríamos compreender, saber desses céus e terras, conquistar alguma consciência sobre a Consciência. E mirando as Estrelas aceitaríamos os seus tempos de mistério, e acalentaríamos a esperança de que, talvez um dia, da Caminhada, enfim, pudéssemos descansar?  

O fato é que sem perder a esperança no moto-perpétuo das indagações, embora meio cansado delas, não me canso de devotar respeito, às vezes medo, às razões das minhas buscas. Então caminho. Claudicante esmago meu neuroma, ou sob meus pés gira a Terra que meu corpo pesado habita. Prossigo ao encontro de Arandu Porã Karai. Não mora longe, mais dois dias estarei com ele.

NA: “Bordado N’Água”, Parte I, Fragmento 1.

Do tupi-guarani: Yvy MarãEy, Terra-sem-Males; Ayvucué, A Calma; Arandu Porã Karai, Sábio do Bom Conhecimento. 

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